Pleito Eletrônico

O Pecado Original das Urnas Eletrônicas

Por que existe tanta dificuldade na implementação do voto eletrônico? Qual a origem de toda a controvérsia em torno das urnas eletrônicas?

Tudo se resume ao que costumo chamar de “pecado original” da urna eletrônica – o problema todo vem da teoria dos conjuntos e, pasme, não tem solução 100% perfeita.

A lei exige que o voto seja único por cidadão, porém anônimo. E esse requisito é impossível de ser plenamente atendido. Trata-se da tentativa algébrica de encaixarmos um objeto quadrado em um encaixe redondo. Explico.

A relação matemática que se procura entre o voto, e o eleitor, é de biunicidade. Cada eleitor deve votar apenas uma vez, e cada voto deve vir de apenas um eleitor. Para quem ainda se lembra das aulas de matemática secundária, é exigida uma relação bijetora entre o conjunto de eleitores e o conjunto de votos. Ambos devem ter exatamente o mesmo número de elementos, ligados por exatamente uma linha.

Ocorre que a lei impõe, também, o requisito do anonimato. E isso quebra a relação exigida entre os dois conjuntos. Ou temos anonimato perfeito, ou temos a garantia de apenas um voto por cidadão. Jamais os dois. Eis o pecado original das urnas eletrônicas, que é algo parecido ao Princípio da Incerteza de Heisenberg, só que para o voto eletrônico e anônimo.

Como podemos ver, o problema não é na urna eletrônica em si, mas na aplicação de requisitos legais complicados em um sistema estritamente algébrico como é o computador digital. Todo voto anônimo cai nesse mesmo problema conceitual, não importa se é na urna do TSE ou uma enquete online.

Qual a solução dada por urnas eletrônicas de todo o mundo, bem como as do TSE? A de separar ao máximo possivel os dois conjuntos de dados para que a identidade do eleitor não seja diretamente derivável do voto em si. Ou seja, o voto gravado no disco da urna não tem o título do eleitor atrelado a ele.

Na prática, lá no momento do voto, tentou-se isolar a urna eletrônica da informação da identidade do eleitor por meio da ação dos mesários. Ao chegar na seção, o eleitor se identifica em uma mesa e procede à cabine de votação onde encontra a urna.  O sistema do mesário não “conversa” com a urna. Certo? Mais ou menos. Para autorizar seu voto, o mesário digita o número do título de eleitor no teclado numérico que vai ligado à urna.  A urna então realiza um consulta interna no banco de dados e determina se esse título de eleitor já foi usado naquele pleito. Assim, o TSE busca garantir a unicidade do voto por cidadão, quebrando o anonimato (a urna sabe o número do seu título) – como não podia ser diferente. Não é uma falha do TSE, assim manda a lógica.

Justamente devido à impossibilidade de separar completamente esses dois conjuntos, sempre haverá “contaminação” entre a identidade do eleitor e o voto proferido. Qualquer tentativa de separar por completo esses dois conjuntos ou estará violando a integridade da relação entre os conjuntos, ou estará violando a legislação eleitoral. Por enquanto o Estado brasileiro optou por garantir uma alta probabilidade de anonimato somada a uma alta probabilidade de correção na contagem de votos. O voto não é 100% anônimo, e a contagem não é 100% garantida. É o que dá para fazer no casamento de impedância entre o requisito legal e a implementação.

É um problema sem solução. Não existe voto 100% anônimo e 100% preciso ao mesmo tempo. A luta das autoridades eleitorais contra esse fato é árdua e será, sempre, controversa aos olhos do povo.

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E nossas urnas eletrônicas seguem inseguras para 2018.

O ex-Secretário de Defesa norte-Americano, Donald Rumsfeld, respondeu a uma pergunta de entrevista de forma tão inusitada que sua resposta se tornou um exemplo de como falar ao público sem que ninguém consiga entender uma só palavra. Uma tradução livre do que ele disse seria algo assim:

“Reportagens que dizem que algo não ocorreu sempre me interessam, porque conforme sabemos, existem coisas sabidas que sabemos e há coisas que sabemos que sabemos. Também sabemos que existem coisas sabidas que não sabemos, o que significa dizer que sabemos que há coisas que não sabemos. Mas, também, há coisas que não sabemos e que não são sabidas, as que não sabemos que não sabemos. E, se você olhar na história de nosso país e outros países livres, são essas últimas que tendem ser as mais difíceis.”

Entendeu?

A frase faz sentido. O fato de sabermos que algo existe não comprova que o resto que não sabemos não existe. É uma consequência de falácias que vem do mau uso da “prova por contradição” e do “terceiro excluído”, usadas na lógica clássica e proibidas na lógica intuicionista. Isso, infelizmente, é mais comum do que se pensa. Encontra-se um caso específico onde temos conhecimento de algo e, mentalmente, generalizamos a negação do contrário para todos os casos.

Já os lógicos intuicionistas acreditam que não existe a prova por contradição. Por exemplo, pelo fato de não encontrarmos um número maior que todos os outros, isso não prova que existem infinitos números. Para provar a existência de números infinitos, de acordo com a lógica intuicionista, deveríamos construir uma prova direta dessa hipótese, o que até hoje ninguém conseguiu. Então, usando a lógica clássica, na ausência de prova do contrário, admitimos a existência de infinitos números.

O que Rumsfeld disse é, na verdade, análogo à nossa dúvida quanto às provas por contradição. Ora, se não encontramos prova de contradição de um caso, extrapolamos para todos os casos – e isso funciona muitas vezes, mas vez e outra gera um problemão. Ou seja, o fato de sabermos muita coisa não exclui a ocorrência de problemas que vem daquilo que não sabemos, e segundo Rumsfeld, aí se encontra uma das dificuldades da administração pública.

E o que isso tem a ver com as nossas urnas eletrônicas para 2018?

Sabemos que já foram encontrados incontáveis problemas com as urnas desde ~20 anos atrás quando começaram a ser usadas. E, com base nos erros já corrigidos, o TSE anuncia que elas são perfeitamente seguras.

No entanto, o TSE atropela aquilo que não sabemos que não sabemos. E o resultado é que, a cada 4 anos, descobrimos novos problemas com as urnas que 4 anos antes não sabíamos que não sabíamos. Está dando para acompanhar?

A cada nova eleição, técnicos sentam-se à frente das urnas e descobrem mais e mais problemas. Nos poucos, e restritos, minutos que são dados aos técnicos, normalmente são encontradas 1, 5, 10 falhas. Imagine se o código e o hardware das urnas fossem totalmente livres?

O problema todo é que o TSE alavanca o fato de não sabermos o que não sabemos. As propagandas deviam dizer “olha, nós não sabemos de nada errado nas urnas, logo até onde sabemos elas são seguras, mas não sabemos o que não sabemos ok?”. Mas, é claro, você não verá essa propaganda (ou, talvez, o CONAR censuraria).

A questão é que seguimos rumo a 2018 com urnas eletrônicas que não imprimem o voto. Isso é um problemão, e a justificativa dada é a pior de todas: “não temos dinheiro”. Ora, camarada, vocês tem dinheiro, sim. E se realmente não tem, então o que é feito com tanta arrecadação?

Referências

Teste em urnas eletrônicas identifica três falhas; TSE diz que não há riscos em votação

Técnicos conseguem invadir urna eletrônica durante teste; TSE diz que falhas serão corrigidas

Grupo hacker diz que urnas eletrônicas do Brasil são propositalmente falhas e acusa vulnerabilidades

Urnas eletrônicas: falhas, vulnerabilidades e fraudes do mesário

Hackers apontam falhas digitais nas urnas eletrônicas

 

 

Foto: Cherie Cullen / DoD USA

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Stiglitz derrapa ao falar mal do Bitcoin

O economista Joseph Stiglitz fez duras críticas ao Bitcoin em entrevista publicada esta semana. Nos anos 1990, Stiglitz foi um dos responsáveis pelo sucesso da política econômica de Bill Clinton. O mundo ainda não viu um período tão próspero quanto aquele vivido pelos EEUU após o colapso da URSS. Na mesma época, Stiglitz foi um dos críticos da globalização, assunto sobre o qual ele estava coberto de razão mais de 20 anos antes dos efeitos nefastos desse processo tornarem-se evidentes. Hoje vemos que a globalização foi um desastre, e países como o Reino Unido e Estados Unidos tentam desfazer os erros cometidos 25 anos antes.

No entanto, ao falar de Bitcoins, Stiglitz derrapou. Confesso que esperava críticas mais profundas, vindo de quem vem, como por exemplo o fato do Bitcoin ser uma moeda deflacionária, cuja perda é impossível de ser reposta.

Vale a pena comentar alguns dos pontos levantados na entrevista.

> “Por que as pessoas querem bitcoins? Por que as pessoas querem uma moeda alternativa? A verdadeira razão pela qual as pessoas querem uma moeda alternativa é participar de atividades ilícitas: lavagem de dinheiro, evasão fiscal”.

Todo o dinheiro que ingressa no universo do Bitcoin, necessariamente, tem que vir dos bancos tradicionais. Não há meios para se comprar grande volume de Bitcoin, como é necessário na lavagem de dinheiro, utilizando cash ao portador. Tem que haver uma transferência eletrônica qualquer em alguma etapa do processo de aquisição de Bitcoins. Se é que existe lavagem de dinheiro em Bitcoins, essa atividade ilícita passa, primeiramente, pelos bancos tradicionais.

Logo a crítica à criptomoeda não é cabível. O problema da lavagem de dinheiro e da evasão fiscal existe independente da moeda de troca empregada, ele ocorre antes dos valores chegarem ao universo das criptomoedas e deve ser combatido lá.

> “O que realmente devemos fazer”, disse Stiglitz, “é exigir a mesma transparência nas transações financeiras com bitcoins que temos com os bancos”.

Primeiramente, qual o real nível de transparência dos bancos tradicionais? É possível visualizar, publicamente, o livro-caixa dos bancos? Já o livro-caixa do Bitcoin é público e pode ser verificado por qualquer pessoa.

Ao contrário do que muitos tem dito, no sistema Bitcoin temos transparência absoluta. A sensação de anonimato obtida com Bitcoin, por usar um endereço alfanumérico esquisito, é totalmente falsa. É possível rastrear todas as transações em Bitcoin desde o primeiro bloco minerado (chamado de “bloco gênesis”) até as menores transações pulverizadas na tentativa de ocultar a origem. Os dados do Bitcoin são 100% públicos e podem ser auditados por qualquer pessoa. E os dados dos bancos tradicionais? Podem ser livremente auditados?

A identidade dos autores de transações em Bitcoin não é conhecida a priori, mas não há como mover sequer uma minúscula fração de Bitcoin sem que o mundo todo saiba. Então, se as autoridades chegarem à origem da primeira transação suspeita de atividade ilícita, chega-se a todas as demais transações.

> Mas se isso [endurecimento com atividades ilícitas em BTC] for feito, acredita o economista, o bitcoin “simplesmente entraria em colapso”.

Há quem diga o mesmo do sistema bancário tradicional. No Brasil, temos o exemplo de dois mega escândalos políticos que estouraram na última década. Todo o dinheiro das falcatruas descobertas, tanto na Operação Lava Jato quanto no “Mensalão”, fluíram livremente pelo sistema bancário sem que os autores fossem incomodados pelas autoridades.

Esse problema não é particular ao Brasil. Todo o dinheiro sujo, oriundo de atividades ilícitas ao redor do planeta, flui por meio de bancos tradicionais. E as autoridades, por melhor equipadas e treinadas que sejam, não são capazes de interromper o processo do crime internacional. Recentemente, tivemos a divulgação dos Paradise Papers, que seguiu a divulgação dos Panama Papers. Ambos casos, devidamente abafados pela grande imprensa, mostram a corrupção generalizada no sistema financeiro/empresarial internacional.

Qualquer recurso ilícito que se encontre depositado em Bitcoin veio, necessariamente, de um banco tradicional.

A interface entre Bitcoins e o sistema financeiro é a mesma que existe com as obras de arte, gado e animais para procriação e abate em geral, terras e outros bens de difícil rastreabilidade que são adquiridos para ocultar valores ilícitos. Se realmente existem valores ilícitos depositados em Bitcoin, eles tem a mesma origem que aqueles depositados em obras de artes utilizadas para o mesmo fim. Segue que o problema não é o Bitcoin, e sim a prática ilícita que ocorreu antes do Bitcoin ser envolvido na transação.

Não é o primeiro laureado com Prêmio Nobel que faz críticas ao Bitcoin. Paul Krugman também fez críticas às moedas virtuais. Soma-se às críticas feitas pelos presidentes do Goldman Sachs e do JP Morgan, os dois maiores bancos do mundo. Coincidentemente, todos utilizam os mesmos termos e argumentos empregados por Joseph Sttiglitz.

O Bitcoin está incomodando o establishment financeiro tradicional. E nós, meros mortais, só temos a ganhar com isso.

 

Foto: World Economic Forum, via CC/Wikipedia

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Sobre a prova de TI do concurso para o TST 2017

Eis que, após 5 anos sem fazer um concurso público, fiz a prova para Analista de Sistemas (opção C03) no concurso do TST 2017.  A banca escolhida foi a Fundação Carlos Chagas.

Resumo: o TST e a FCC apagaram a Ciência da Computação da prova de Análise de Sistemas. E métodos ágeis apareceram no edital só para confundir.

Prova Discursiva

A banca deu um drible em todos que estudaram focados no edital.

A discursiva inteira foi em cima de documentação(Business Process e UML) e procedimentos(ITIL) – duas coisas que são explicitamente preteridas no Manifesto Agil. Como no edital não foi citado o RUP, mas apenas métodos ágeis, especulei que o foco não seriam métodos de documentação e ferramentas específicas. Ledo engano. A prova inteira foi sobre documentação, ferramentas/sintaxe e procedimentos.

Por falar em manifesto ágil …

Scrum e Kanban sumiram….

Scrum e Kanban foram citados no edital, com a mesma ênfase de ITIL.

Só que ITIL definiu quem vai ser aprovado e Scrum caiu apenas em 2 sub-ítens de uma questão. Scrum e Kanban apareceram em dois itens dentre 5, de uma questão entre 40.

Ou seja, Scrum e Kanban valeram cerca de 1% da prova objetiva. No todo, então, levando em conta conhecimentos gerais e a discursiva, valeram uma minúscula fração.

Novamente, um edital que só citou métodos ágeis cobrou tudo ao contrário.

… e a Ciência da Computação também sumiu…

Caíram zero questões de Ciência da Computação. Em outras palavras, na prova de analista de sistemas do TST não houve sequer um algoritmo para analisar, nenhuma estrutura de dados, nenhum conceito de lógica de programação foi abordado.

O TST e a FCC apagaram a Ciência da Computação da prova de Análise de Sistemas.

Em suma, o candidato aprovado não precisa saber o que é uma lista, um algoritmo de ordenação ou recursão.

Foco em Gestão

A prova discursiva vai selecionar administradores de empresas, PMPs (project management professionals) e gestores de TI.

Quem memorizou ITIL, COBIT e PETI se deu bem. O estudo de caso girou em torno de ITIL, BPM e UML.

Com certeza não foi uma prova para programadores, engenheiros de software e analistas de sistemas propriamente ditos.

Oracle

Entre os mil e um assuntos relevantes sobre Oracle, caiu uma questão sobre a query MERGE. Eis a questão (clique para ampliar):

Traduzindo, não procuram conhecimentos gerais sobre Oracle – o assunto apenas constou. SQL Server foi cobrado, implicitamente, nessa mesma questão, já que essa consulta é válida tanto em Transact-SQL quanto em PL/SQL. No mais, SQL Server também levou um sumiço.

(E quem for aprovado neste concurso provavelmente jamais usará uma query MERGE.)

XML

De todos os assuntos que poderiam ter sido explorados, cobraram uma questão sobre DTD.

Ou seja, é como se fizessem uma pergunta sobre o compilador de Java em vez de falar da linguagem.

O DTD é parte da validação de XML, não da linguagem em si.

Enfim, também incluíram só para constar XML em algum lugar já que havia sido citado no edital (fora uma outra pergunta sobre SOAP).

XP – eXtreme Programming

XP também foi apenas mencionada em um item da mesma questão sobre Kanban e Scrum. O item estava dado de presente também.

Na última prova do TST o XP foi objeto de uma redação discursiva. Nesta foi 0,5% da prova.

Realmente os concursos de TI parecem uma loteria.

Conclusão

Foi uma prova para recrutar profissionais de gerenciamento de projetos que tenham noções de TI. Um administrador de empresas que tenha boas noções de TI teria se saído bem, especialmente devido ao material cobrado na prova discursiva.

A parte técnica da prova foi muito tranquila, com perguntas superficiais sobre tags HTML, PHP e afins e, convenhamos, foi 100% decoreba.

Raciocínio lógico não foi cobrado. Não houve qualquer questão sobre Ciência da Computação tampouco, nem de matemática básica. A única conta aritmética necessária foi para calcular a faixa de avaliação de riscos, multiplicando (1 ou 2) x 3 x 50.

Podemos especular que intenção do TST seja de terceirizar o desenvolvimento de sistemas e manter internamente apenas uma equipe de gestores experientes em ITIL e COBIT para gerir os eventuais contratos. Talvez tenha sido esse o propósito deste certame, visto que de imediato há apenas uma vaga a ser preenchida e talvez a área com vacância tenha este perfil mais gerencial.

Mas, cá pra nós, realizar um processo de seleção dessa magnitude para preencher apenas uma vaga de gestor, exigindo diploma de computação?

Realmente o Banco Mundial tem razão, o Brasil gasta muito e gasta mal.

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Naftalina

Curso de Linguagem BASIC da Universidade de Brasília – Anos 1980

Abaixo você pode baixar um curso introdutório à linguagem BASIC que era ministrado na Universidade de Brasília nos anos 1970 a 1980. Não tenho informações sobre o autor para dar o devido crédito. Essa apostila era distribuída aos alunos da Engenharia Elétrica. Na época em que esse curso era ministrado, ainda não existia curso de Ciência da Computação (CIC) na UnB. O CIC seria criado apenas em 1987.

Curso de Linguagem BASIC da ENE – UnB

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