Site OiNK.CD tirado do ar. O BitTorrent subiu no telhado?
O Bit Torrent, que é na minha opinião a invenção mais importante da Internet desde que o ICQ estreou dando início à era de mensagens instantâneas. Mas acho que, como ferramenta para troca de programas e filmes piratas, o Torrent pode ter seus días contados.
O Torrent é um sistema de download onde um arquivo é compartilhado por toda uma rede de pessoas, o que distribui a carga e o download não fica sendo apenas entre 2 PC’s. A idéia em sí não é nova. O antigo Morpheus funcionava já com arquivos distribuídos onde você baixava trechos do arquivo de pessoas diferentes. Assim, quem não tinha o arquivo completo podia compartilhar apenas o que já tinha.
Acontece que o Torrent não tinha uma rede definida como o Morpheus ou o Napster, portanto as autoridades não podiam processar empresas ou proprietários de uma rede específica.
Então acreditava-se que o Torrent era a máquina perfeita de pirataria. Indivíduos espalhados pelo mundo trocavam arquivos livremente, sem qualquer problema com a Lei. Com alguns ajustes o Torrent pode continuar sendo uma poderosa ferramenta de pirataria, porém, como veremos abaixo, a indústria fonográfica está pegando pesado. E eles tem um novo alvo.
A diferença do Torrent para sistemas como o Morpheus e Napster está basicamente na ausência de uma rede central que coordena os downloads. O Torrent é forte devido à enorme quantidade de indivíduos que compartilham material. As redes formadas pelo Torrent são “ad hoc”, conforme pessoas compartilham um arquivo a rede se forma, e ela muda constantemente de acordo com quem entra ou sai da rede. Se todos que compartilham um arquivo simplesmente desligarem seus PC’s a rede Torrent daquele arquivo simplesmente desaparece. Isso é o que se pensa, na verdade há, sim, um elo fraco : o arquivo que registra quem está na rede no atual momento, o famoso “tracker”.
A mão pesada da indústria da mídia
Mas os donos dos direitos autorais fizeram o que todos pensavam que ninguém teria coragem de fazer. Foram atrás dos indivíduos que compartilhavam os arquivos, e foram atrás dos servidores que hospedavam os arquivos que registravam quem estava compartilhando.
Em todos os processos anteriores, os alvos eram empresas e não indivíduos. No Brasil, por exemplo, existem casos de empresas autuadas em milhões de Reais em multas por pirataria, mas não é frequente ver indivíduos sendo processados pela Microsoft e pelas gravadoras. Até o presente momento o combate à pirataria no Brasil tem sido na forma de ação policial contra camelôs e ações cíveis contra empresas que empregam software pirata em larga escala.
A estratégia da indústria musical, de Hollywood e de software, portanto, começa a mudar de forma radical. Novo alvo: o cidadão que usa material pirata de qualquer espécie(músicas, software, filmes).
Esta semana foi fechado o maior site de acompanhamento de Torrents da Europa, a pedido da polícia de Cleveland, nos EUA. O site OiNK.CD está fora do ar e agora apresenta apenas uma mensagem : “este site está sob investigação das polícias de Cleveland, Holanda e BPI(grupo anti-pirataria da Inglaterra)”.
O sistema OiNK tinha, supostamente, um artifício de auto-destruição de dados em caso de funcionamento anormal, o que pode preservar a identidade de 180.000 usuários. Porém se as autoridades tiverem tomado as precauções de análise forense corretas, esses dados estarão literalmente abertos e disponíveis para que eles encontrem um por um dos milhares de usuários. Órgãos estatais como o FBI nos EUA e a Scotland Yard na Inglaterra tem orçamentos praticamente ilimitados para esse tipo de operação. É a guerra do futuro, e eles sabem disso. Quando os algoritmos criptográficos começaram a se tornarem públicos nos anos 1970, o Governo dos EUA temía que essa poderosa arma seria utilizada contra os EUA pela União Soviética. Hoje, como sabemos, a criptografía se tornou uma forma de tentar evitar a pirataria. Mas não tem surtido muito efeito pelo mesmo motivo que a criptografia pode não salvar os usuários do OiNK : para ser útil, a criptografia tem que ser reversível de alguma forma através de uma senha(ou chave). E as autoridades vão buscar essa chave criptográfica onde ela estiver. No caso do Torrent ela está na casa de um indivíduo que ouve música pirata calmamente em alguma parte do mundo.
Quando ele compartilha um disco de seu artista predileto ele nem imagina que o FBI e arapongas do mundo todo estão indo em direção a sua casa em pickups de vidros fumê, armados até os dentes.
Assim as autoridades, obviamente trabalhando em escala global, estão fechando o cerco em torno do Bit Torrent. Como plataforma para troca ilegal de arquivos, o Torrent até que viveu tempo demais. No site Isohunt.com por exemplo você encontra simplesmente de tudo, desde os últimos lançamentos de filmes que nem sequer estrearam no Brasil como qualquer software que possa imaginar.
Uso legal do Bit Torrent
Claro que uma tecnologia avançada e realmente funcional como o Bit Torrent não vai morrer simplesmente porque a pirataria está ficando cada dia mais vigiada. O Torrent é uma plataforma excelente para distribuir legalmente software aberto como distribuições Linux e outros de licença livre.
Fazer o download do Slackware via Torrent por exemplo é cerca de 4 vezes mais rápido à partir de minha conexão ADSL caseira. Para volumes de vários gigabytes isso pode significar a diferença entre esperar “apenas” 2 dias ou uma semana inteira. A vantagem do Torrent é, claramente, no download de grandes volumes de dados.
A distribuição de software aberto, ou de software comercial legalmente adquirido, via Torrent livra o servidor central dos problemas causados por milhares de usuários conectando ao mesmo tempo no dia do lançamento de sistemas muito procurados como o próprio Slackware Linux ou Fedora Core.
Por enquanto, o Torrent está a salvo
Portanto acredito que, até o presente momento, o Bit Torrent está a salvo. Sua utilidade e sua propriedade de ser livre de patentes ou royalties ainda farão dele o método mais eficiente para distribuição de software legal, pois além de ser muito seguro, ele permite que servidores centrais não sejam sobrecarregados com milhares de pedidos de downloads simultâneos. Já o Torrent comporta “enxames”(jargão do próprio sistema Torrent) de downloads de milhares de pessoas sem perder performance.
Quanto à pirataria…bem, se o Estado utilizar sua mão armada há pouco que o pirata possa fazer. Na verdade, quando o Estado entra na sua casa legalmente com um mandato judicial e retira seus PC’s, realmente só um especialista extremamente paranóico seria capaz de evitar que muita informação seja obtida pelos peritos policiais. E normalmente quem está fazendo pirataria via Torrent é algum adolescente sem maior preocupação.