Há um pessoal vendendo válvulas no Mercado Livre e em lojas virtuais de empresas espalhadas pelo Brasil. Sem falar no preço cobrado por tais comerciantes(não os culpe, eles sobreviveram à carga tributária absurda no Brasil), o que tem me preocupado é a quantidade de válvulas com problemas que tem aparecido.
Ninguém questiona a qualidade das Svetlana, tanto as SED(Svetlanas “originais”) quanto as atuais fabricadas pela Sovtek tem ótimo padrão de qualidade. Há quem prefira o timbre das SED em detrimento das Svetlana-Sovtek, porém não há uma grande diferença de qualidade na construção de ambas, são ótimas válvulas.
No entanto, para minha surpresa, de Abril para cá peguei vários pares de 6L6 Svetlana com centelhamento precoce – com poucas semanas de uso, as 6L6 passam a transferir carga entre eletrodos que deveriam estar isolados pelo vácuo. Uma mostra clara de defeito de fabricação: pode ser falha mecânica(eletrodo soltando ou mal espaçado) ou vácuo infiltrado(weak vacuum), permitindo ionização do gas e condução elétrica – o que enxergamos como flashes saindo da válvula.
Tais flashes emitem incontáveis harmônicos, geram efeito flyback no trafo de saída, promovem surtos de corrente perigosos, enfim, fazem um estrago no amp. Quando queimam o fusível antes o prejuizo pode ser diminuido. Quando o fusível foi trocado por aquele fiozinho na hora do desespero antes do show, o amp pode ir todo pro espaço: fonte, trafo de saída, trafo de alimentação e por aí vai. Válvula centelhando é problema na certa.
A Sovtek fabrica válvulas 6L6 com maior tolerância a alta voltagem e diversos reforços internos, são vendidas como WXT+. O W costuma designar válvulas com padrão de “qualidade militar”, seja lá o que isso quer dizer em pleno 2010. Das WXT+ vendidas no Brasil, passou por minha bancada um par “casado” que possuia corrente de cátodo bastante semelhante, no entanto uma delas avermelhava a placa. Esse fato demonstra que essa válvula já havia sofrido excesso de corrente, e aquela região que incandescia era justamente a parte que sofreu alteração durante testes anteriores. Como essa válvula veio parar no Brasil como sendo nova? De onde foi comprada?
Ontem mesmo testei 2 pares de 6V6 Electro-Harmonix, também fabricadas pela Sovtek(ou pode-se dizer que as Sovtek é que são EH) – o fusível do amp queimava na hora com ambos os pares. Passei horas procurando o problema no amp, porque era praticamente impossível 2 pares darem pane, certo? Errado. Coloquei um par de JJ compradas e trazidas diretamente dos Estados Unidos por um amigo, e pronto…funcionou. Os dois pares de 6V6 que comprei em São Paulo estavam com problema de fábrica.
E quem está fazendo esses casamentos de válvulas aqui no Brasil? É inacreditável que um “par casado” comprado em São Paulo venha com 20% de discrepância na corrente de catodo. No mesmo amp, nas mesmas condições, uma 6L6 manda 30 mA e outra 37mA de corrente. Isso não é par casado, é um casamento de Las Vegas que vai durar semanas.
Moral da história?
Empresas como a Ruby Tubes, Groove Tubes, Tube Amp Doctor, e incontáveis outras, compram milhões de válvulas para selecionar as melhores, efetuar casamento de pares/quartetos/sextetos e colocar suas marcas nelas para venda com valor agregado.
E o que fazem com o resto, o refugo que não passa nos testes e que não conseguem casar???
É evidente que estamos pagando altos preços por válvulas de refugo aqui no Brasil. O triturador tributário do governo faz sua parte para perpetuar a qualidade de vida do músico, afinal os músicos são um perigo para nossa economia : trabalham ganhando pouco, não são grande fonte de arrecadação de impostos, e usam equipamentos com válvulas antigas. Ainda por cima tentam comprar instrumentos usados do exterior, o que nossa lei proibe expressamente!
O governo faz sua parte para promover avanços onde é necessário, como procurar alguém para socorrer o banco falido do Silvio Santos, por exemplo. Esse sim, e não musicos muambeiros, merece todo o apoio do poder constituido.
Acabo de deixar um post no Cifraclub, falando das torradeiras que estão vendendo por aí com nome de amplificador valvulado.
Quem tiver um tempo para ler, e também estiver intrigado com o preço de alguns amps no mercado atual, passe lá.
Atualização 2010-11-17
Há quem tenha talento para política. Há quem fuja dela.
Dizia Platão(acho) que “homens de bem não fazem política” – sigo essa tese, mas as vezes, confesso, caio na tentação de uma discussão mais acalorada(sempre me arrependendo depois).
Enfim, a discussão no Cifra Club foi tudo, menos técnica. Vixe, como é difícil lidar com o ser humano. Não levo jeito pra isso, tive que bater em retirada.
Bola pra frente, o rock não pode parar.
Se você estava de plantão no dia, ou por algum outro motivo insólito foi obrigado a assistir o show do Paul McCartney pela TV Globo, deve ter notado que o Brian Ray usa uns amps nada comuns em seu jig.
Os dois amps vistos no palco de São Paulo em 2010 são Divided by 13, marca pouco conhecida no Brasil mas que tem diversos adeptos de nome, um verdadeiro “cult” de primeira linha que inclui Ron Wood, The Edge, Billy Gibbons e outros.
São construidos por Fred Taccone na California.
O Brasileiro é um povo versátil. Nos acostumamos facilmente com novos conceitos e vamos adiante, sabendo o que o conceito significa, e sem ficar questionando demasiadamente seu significado.
Hoje estive pensando no significado do termo “hand maker”, no contexto de amplificadores para instrumentos.
Primeiramente, vamos pensar na origem do termo. É da lingua inglesa, então vamos buscar no Google.com(não no .com.br) o que ele nos traz para esse termo. Os primeiros 10 resultados tratam de asilos para velhinhos e religião. OK, então como era de se esperar, os primeiros resultados não tem nada a ver com fabricantes de amplificadores.
Vamos pensar no significado do termo traduzido. Hand maker, por sí só, significa “fabricante de mãos”. Não faz sentido. É preciso um sujeito para que o termo qualifique, que tipo de coisa essa pessoa fabrica à mão? Amplificadores. Então é um “hand maker of amplifiers”, ou “amplifier hand maker”. Mesmo assim, o termo não é o mais adequado na lingua inglesa.
O mais correto, talvez, seria “amplifier craftsman”.
Hand maker é uma gíria que adotamos para aqueles que constroem amplificadores à mão, normalmente entendemos implicitamente que se tratam de amps valvulados. Só que, verificando as páginas dos principais “hand makers” do Brasil, vejo que os amps são feitos em série e alguns usam até mesmo placas de circuito impresso feitas por robôs automatizados.
Ora, se os amplificadores são feitos em série, e utilizam tecnologia CNC e automação, não são mais hand mades. São micro/pequenas indústrias de amplificadores.
Hand made, no meu conceito, é um amplificador feito à mão, peça única, sob medida para quem encomenda. Algumas poucas unidades semelhantes podem ser construidas ao longo do tempo, mas não chega a ser uma série de amps pois todos tem algumas modificações.
Amplificadores feitos em série são marcas de industrias normais, como quaisquer outras. Qual a diferença do amplificador Joãozinho que é feito em série e um Fender? A diferença é que a Fender existe desde 1946 e eu não sei quem é o Joãozinho. Ou seja, à partir do momento em que o artesão serializa sua produção, ele deixa de ser hand maker e torna-se concorrente de grandes fabricantes.
Voltando ao significado do termo, eu diria que “hand crafted amplifiers” seria um termo muito mais “Inglês”, e quem constrói esse tipo de amp seria um craftsman, não um “hand maker”. Mas nenhum desses termos vão pegar na lingua portuguesa porque sua pronúncia é pra lá de “cheguei”.
O significado do termo é errado, e aqueles que esse termo designavam (há alguns anos) já deixaram de ser artesãos faz tempo e viraram pequenos industriais, fabricando amps em série. Eis que, para minha surpresa, matutando à toa, descobri que “hand maker” não significa absolutamente nada.