Nesta manhã surgiu no Blog do Noblat, no Globo, um artigo entitulado “Internet e segurança nacional“, escrito por um advogado chamado Joaquim Falcão, cujo curriculum, de tão extenso ao final do artigo, forma perto de 20% do conteúdo em sí. (Isso é um elogio, não uma crítica.)
Filosofias a parte, o Doutor é professor de Direito e acho que poderia ter sido mais cauteloso na forma como noticiou a renovação dos contratos da ICANN.
Em Fevereiro de 2008, postei aqui no blog um breve resumo da história da ICANN, coincidentemente em resposta a outro artigo postado no Noblat. Eis que o Noblat, que é de 3 gerações(no mínimo) anteriores à minha, não costuma acertar quando fala de tecnologia em seu blog. Este blog aqui, inclusive, tinha uma seção chamada “Respondendo ao Noblat”, que depois foi retirada por ter enchido meus bancos de dados com tanto o que falar.
Sobre a ICANN e o sistema DNS, o fato de que é controlado pelos EUA é público e notório.
1) Brasil defende fim da hegemonia americana na web
2) 13 pontos e um segredo (Resumo: Sim, os EUA controlam a Internet. Afinal, eles a inventaram…)
Sobre o artigo, algumas coisas chamaram a atenção.
“No fundo é uma instituição controlada pelo Departamento de Comércio Norte-Americano, que responde ao Presidente e ao Congresso americanos.”
No fundo não, na superfície mesmo. TUDO nos EUA é controlado pelo Congresso e pelo Presidente, oras. Não fosse, seria um Estado dentro do Estado. O Departamento de Comércio herdou a ICANN do Departamento de Defesa. Qual você prefere que administre a Internet?
“O mundo todo depende deles. Nós tambem.”
Não é uma relação de dependência e sim de cooperação científica. Usar a palavra “depender” torna a afirmação perniciosa, leva a conclusões politicamente distorcidas sobre a Internet. Cito novamente a história da ICANN, sua criação partiu dos militares dos EUA que foram até a comunidade científica e passaram o controle de uma arma fabulosa para cientistas hippies. A iniciativa partiu do “establishment”, dos militares dos EUA, e é admirável que hoje tenhamos acesso livre e irrestrito a uma tecnologia como a suíte de protocolos que forma a Internet. Não se pode generalizar, nem devemos ser levianos em relação a outros países, mas é possível afirmar que poucos países que tivessem desenvolvido algo como a Internet teriam aberto da forma que os EUA abriram. Imagine se outra potência tivesse ganhado a “corrida à Internet”, muito provavelmente hoje não se estaria falando da ICANN.
“Comenta-se que o Governo Bush cogitou até mesmo desconectar os domínio “.iq”, do Iraque, do resto da Internet na época da guerra. Não fizeram, mas poderiam ter feito. Se isto ocorresse, duas consequências seriam imediatas. Primeiro, paralizaria e derrotaria o Iraque na hora. Nenhum serviço urbano, nada de telefonia, nenhum avião levantaria vôo, ninguém se falaria. Segundo, revelaria ao mundo que esta arma – o controle da internet – é muito mais poderosa do que qualquer bomba nuclear.”
Este é um parágrafo que poderia, e deveria, ter sido apagado do artigo. O Iraque sofreu um dos piores bombardeios da história na primeira noite de “guerra”.
Testaram todas a bombas possíveis encima do povo inocente do Iraque, não ficou um fio de cobre, prédio, casa, ponte, estrada, fibra ótica, avião, ambulância, escola, navio ou tanque inteiro onde as bombas caíram. Ninguém, civil ou militar, pensou em internet naquela noite de pesadelos. Os EUA destruiram o Iraque todo em um ou dois dias, mataram dezenas de milhares de inocentes, aviões invisíveis que custaram trilhões de dólares ao povo dos EUA jogavam bombas de milhões de dólares encima de pessoas sem um sapato para calçar.
Mas já que falamos nisso, ignorando o caos humanitário que foi esse bombardeio, lhe garanto que nenhum serviço urbano depende do sistema DNS, a rede de telefonia é absolutamente independente do sistema DNS. A rede telefônica, assim como a Arpanet(Internet), foi construida para sobreviver a um ataque nuclear e os engenheiros de telefonia sempre se orgulharam do fato da telefonia ser independente, independente até mesmo da rede elétrica. “A eletricidade pode cair mas o telefone funciona”, dizia uma velha propaganda de uma velha empresa que eu não me recordo mais qual era.
Avião nenhum depende do sistema DNS e as pessoas não deixariam de se falar. Para o povo Iraquiano a pior consequência seria o Orkut fora do ar para distrair o povo enquanto os EUA bombardeavam suas casas 24 horas por dia.
Seja qual for a opção escolhida, o fato é que o Brasil precisa urgentemente de uma política de internet que seja considerada questão de segurança nacional.
Já sobre esse assunto não posso opinar. No entanto acho que o Brasil precisa é de priorizar a educação e colocar corruptos na cadeia, isso sim é questão de segurança nacional.
Aparentemente nossa segurança nacional se faz em blitz de trânsito, a julgar pela quantidade delas nas ruas. Imposto é bom e o governo gosta, e eles não param de nos tomar mais e mais taxas, tarifas, impostos, “contribuições” e multas. Não param de engordar o Estado, isso sim é um perigo para o Brasil. Segurança nacional seria alguém se perguntar: de onde virá o dinheiro pra sustentar esse aparato estatal que cresce exponencialmente? Ninguém aguenta mais impostos para sustentar essa máquina e os concursos públicos se multiplicam todos os dias. De onde virá o dinheiro para tanto cargo estatal?
Tem muita coisa para o Brasil se preocupar antes de julgar a ICANN, deixemos com eles essa função por mais 20 anos. Terei preocupação, sim, o dia em que a ICANN for substituida pelo Detran.
Á, e se por acaso, neste meio termo entrarmos em guerra com os EUA eu lhe garanto que a internet não estará em nossa lista de preocupações.
PS. As piores ameaças à liberdade na Internet no Brasil tem vindo de nosso Congresso Nacional, não dos Estados Unidos.