Os boatos começaram a surgir faz algum tempo, em blogs e pequenos sites de tecnologia: a crise só teria chegado oficialmente ao Vale do Silício o dia em que o Google começasse a demitir.
Desde que surgiu, o Google não parou de contratar um só dia de sua existência. Em 2009 completam-se 10 anos que usei o Google pela primeira vez, lembro como se fosse ontem da experiência de não precisar usar expressões complicadas com aspas, + e – para achar o que precisava. O Google era realmente muito melhor que o Altavista.
Eles aprenderam bem a lição da Microsoft: um dos segredos para o sucesso é saber contratar. Bill Gates chegou a afirmar que o grande talento de Steve Ballmer era contratar as pessoas certas, hoje Ballmer é CEO da Microsoft – tal a importância de seu papel no progresso da empresa.
O Google fez a lição de casa e seguiu perfeitamente o exemplo da Microsoft, eles não contratavam qualquer um. Eram garotos-prodígio recém formados em universidades como Stanford, MIT e Caltech. Em alguns anos, o Google conseguiu montar o que é considerado o maior exército de PhD’s em matemática fora da NSA, a maior agência de espionagem tecnológica dos EUA.
Surgiram então matérias sobre a alta qualidade de vida no Google. Instalações maravilhosas, comida de primeira, horários flexíveis e jornadas curtas com direito a 20% do tempo para os funcionários investirem em projetos pessoais. Era o sonho de qualquer tecnólogo. Rapidamente a empresa se espalhou pelo mundo. Abriu escritórios ao redor do globo e, claro, no Brasil. Houve uma rápida migração de talentos para Belo Horizonte, onde fica o centro de pesquisa e desenvolvimento(R&D) do Google no País.
No entanto chega uma hora em que a empresa passa de uma novidade para um nome caseiro. O Google tornou-se commodity, todo mundo espera poder ligar o navegador e jogar uma busca qualquer no google.com e achar imediatamente o que precisa. Ninguém mais se impressiona com o tempo de busca(normalmente uma fração de segundo) ou com a qualidade dos resultados: todos esperam simplesmente usar o Google e que ele funcione toda vez.
O Google virou gente grande. E, como empresa adulta, saem de cena os matemáticos e entram os burocratas que sabem, como ninguém, passar a régua em papel verde e branco. Em época de crise garante-se, em primeiro lugar, o retorno aos acionistas. É assim que deve funcionar o capitalismo, mesmo numa empresa inovadora como o Google.
Chega ao fim aquela aurea surreal do emprego perfeito na melhor empresa do mundo para se trabalhar, e começa o árduo e doloroso período em quem funcionários se entreolham pensando “quem será que vai”…. Toda empresa passa por isso, mas sempre que surge uma empresa-fenômeno como a Microsoft, ou o Google, a tendência é pensar “esta é diferente” ou “aqui não isso não vai acontecer”.
Os boatos saíram da blogosfera e chegaram à grande imprensa: está no Wall Street Journal e no Los Angeles Times, Google demitiu 100 funcionários de recursos humanos e as contratações entrarão em “novo ritmo”.
É a confirmação oficial: a crise chegou ao Vale.