blog do Zé

 
 

17 de November, 2006

Hercule Poirot pergunta silenciosamente, como fez em todos os casos antes deste : a quem interessaría o assassinato da Internet?

Filed under: Blah, hmmm, etc, Controle da Internet — jfonseca @ 8:26 am

Chegando à cena do crime, o brilhante inspetor Poirot observa cuidadosamente cada metro quadrado dos luxuosos corredores do Congresso Nacional. Estava à procura de uma evidência qualquer, que por ventura tenha sido deixada pelos assassinos da Internet. “Não há crime perfeito” pensou. “Em algúm lugar, haverá uma pegada, deixarão uma impressão digital. O assassino se revelará, e revelará, sem querer, o real motivo desse crime covarde que aconteceu dentro do Congresso Nacional.” “Não há crime perfeito”, repetiu silenciosamente o inspetor.

Sem perder tempo, Hercule Poirot inicía seus trabalhos exatamente como faz há 40 anos decifrando os crimes mais intrigantes pelo mundo afora. Este assassinato em particular lhe chamou a atencão por ter ocorrido na Capital do Brasil, justamente na sede de um dos Três Poderes de uma República democrática.

Hercule Poirot lembrou que ainda não conhecía Brasília, pois o impediram diversas vezes de vir investigar misteriosas mortes ocorridas por aquí entre os anos 60 e 90. “Até hoje eles não resolveram aqueles assassinatos…quem sabe me dão a oportunidade de esclarecer tudo?” Poirot não se entretém por muito com os pensamentos desse passado já distante, e caminha serenamente pelos corredores do Congresso fazendo pequenas anotacões sobre o que observou até aquí. “Este é um assassinato mais sutil…é coisa de mestre” pensou o inspetor ao encontrar os primeiros indícios de um crime bem elaborado.

Sua primeira anotacão dizía: “a morte da Internet aconteceu sorrateiramente, em pleno recesso branco do Congresso Nacional, portanto o assassino não desejava estar sob os holofotes. Devo buscar um suspeito de caráter tímido, recatado. O assassino deve toda sua fama à denúncias da imprensa, que detectou rapidamente algo errado na trama.”. Poirot deduz que alguém ganhará muito dinheiro vendendo certificados digitais, pois só um método criptográfico podería identificar o usuário de Internet como desejava o assassino. O inspetor se recorda da época em que foi promulgada a lei do Novo Código de Trânsito do Brasil, que obrigava a venda de kits de primeiros socorros. A notícia havía chegado à Bélgica com grande alharde, o Brasil era novamente motivo de chacota no mundo europeu. “Alguém ganhou muito dinheiro com aqueles kits e não foi o povo brasileiro.” Poirot sente que está na trilha certa, seu instinto nunca lhe falhou em 41 anos.

Segunda anotacão: “o e-CPF ou e-CNPJ terá que ser inserido no PC(ou roteador central da Empresa) para o cidadão ou empresa conectar-se à Internet de modo a causar uma morte lenta porém silencionsa. Meu suspeito deve possuir conhecimento de informática, devo lembrar disso mais adiante.” Hercule percebe imediatamente a sombra de alguém que ganhará muito dinheiro vendendo smartcards, pendrives e leitores de e-CPF para PC’s, empresas e CPD’s pelo Brasil afora movendo-se sorrateiramente pelos corredores do Congresso. Sem conseguir identificar o rosto, Poirot percebe apenas que a sombra se desloca com rapidez para o plenarío do Senado. Ao chegar lá, Poirot encontra-se numa multidão, perdido em meio a uma Sessão Plenária. São muitos rostos familiares, muita gente e muito barulho. Tería sido apenas imaginacão, ou a sombra era de alguém que possuía familiaridade com este local? “É impróprio sequer comecar a suspeitar dos representantes do povo aquí presentes”, ponderou o inspetor. Poirot não teve alternativa senão admitir ter perdido o suspeito desta vez.

“Imagino, portanto, que todo o tráfego da rede do cidadão ou empresa vigiada deverá passar por um filtro que assinará digitalmente cada pacote de dados, de modo a identificar o navegante através de seu e-CPF. A trama é complexa, estou lidando com alguém bem informado. Tenho um perfil quase completo do assassino, estou quase lá.” Seu instinto não lhe falha, Poirot sente que o assassino ainda está dentro do Congresso e ainda ameaca o povo brasileiro e outros parlamentares. Essa constatacão preocupa o inspetor, é um crime da maior gravidade e precisa ser resolvido logo. Poirot prossegue, anotando a seguinte observacão: “alguém ganhará muito dinheiro fazendo programas para monitorar tudo o que for feito na Internet pelo cidadão. Isso é preciso de modo a assinar todo o tráfego com seu e-CPF.” Mais animado ainda, Hercule Poirot retorna ao Plenário do Senado e observa calmamente cada rosto, cada expressão. Pequenos gestos podem identificar os assassinos da Internet entre legisladores honestos. O tempo é curto, outras vítimas virão e Poirot sabe disso.

Mostrando seu conhecimento da Internet, Poirot escreve ainda : “o provedor de Internet terá que possuir o identificador Estatal instalado, e terá que adquirir um e-CNPJ por até R$ 475,00. O seu e-CPF e o e-CNPJ farão parte de uma troca de chaves como aquela inventada por Marty Hellman e seu tímido amigo Whitfield Diffie. À partir daí todo o tráfego ficará marcado como tendo ocorrido entre o e-CNPJ do provedor e o seu e-CPF. Este assassino é calculista e tecnicamente afiado no assunto Internet. Devo me cuidar. ” O inspetor não tem dúvidas: alguém ganhará muito dinheiro vendendo hardware adicional para os provedores de acesso. “O plano é quase perfeito!” exclamou Poirot. “Os próprios provedores terão que arcar com o custo do assassinato da Internet!”

O inspetor não compreende, entretanto, como é que o assassino da Internet instalará seu programa de e-CPF em telefones celulares e demais aparelhos de pouco poder de processamento que, por ventura, possam vir a se aventurar pela grande Rede. Obrigarão todo mundo a comprar um cartão de e-CPF por R$ 200,00 ou mais? Quem vai pagar o aumento de servidores e maquinário do lado do provedor para aguentar essa carga de criptografía toda e o imenso desperdício de eletricidade que a criptografía Estatal obrigatória acarretará? Poirot lembra-se imediatamente das pesquisas de Von Neumann sobre computacão reversível e anota: “todo processo criptográfico, assim como todo processamento de informacão, exige consumo adicional de energía proporcional à quantidade adicional de informacão a ser processada.” “Se eu preferir Linux ou MacOS, o Estado fornecerá programa filtro para esses sistemas também?”, pergunta-se o inspetor “Como um assassinato tão elaborado podería ocorrer dentro do Congresso Nacional?”

O inspetor prosseguía as investigacões quando percebeu estar repentinamente rodeado por agentes da Polícia Legislativa.
Poirot: bonjour monsieur policial du Brèsil, é mesmo um crime interessante que temos aquí não acham?
CB Tenório: o único crime que temos aquí é o de sua autoría, seu belga inxerido. Não vê que infringiu a lei de imunidade parlamentar ao investigar um nobre Senador pelo assassinato da Internet?
Poirot: sacre bleu monsieur policial, eu non ía acusar nenhum Senador! Na verdade eu tinha apenas uma sombra como principal suspeita do terrível assassinato de sua Internet que era tão bonita e tão livre! É mesmo um Senador o dono da sombra que eu investigava todo este tempo?
CB Tenório: bom, aparentemente cometí uma pequena gafe. Claro que nenhum Senador tentaría assassinar a Internet. O Sr. deve continuar suas investigacões fora daquí, sinto informar.
Poirot: mas eu estou certo que o assassino da Internet ainda está nos aposentos. Pode ser perigoso. Tenho certeza que criminoso ainda está aquí dentro, entre nós!
CB Tenório: sinto muito inspetor. A única coisa da qual estou certo é que o Sr. deve se retirar imediatamente destes recintos.

Em toda sua carreira, Hercule Poirot nunca havía ouvido falar em imunidade parlamentar para um crime como o assassinato da Internet. Esse País que acabava de conhecer lhe deixou deveras intrigado. Poirot se perguntava “será possível que o assassino da Internet podería ser um parlamentar eleito pelo povo deste belo País?” “Não acredito” dizia ele…”não acredito”. Embarcando no avião de volta à Bélgica, Hercule Poirot sentía-se frustrado: o Brasil foi o único País do mundo que impediu o famoso inspetor de desvendar um crime. “País curioso”, pensou ele. “Aquí eles tem medo de que a verdade apareca, por algum motivo que eu não conseguí explicar durante os 20 minutos que eu investiguei este crime. É um povo simpático, mas gosta de prolongar mistérios! Era questão de mais 30 ou 40 minutos para que eu apontasse o verdadeiro assassino da Internet no Brasil. Mas por algum motivo agentes do Estado me impediram de prosseguir. C’est la vie. Au revoir Brèsil!!! “, dizía uma anotacão final.

Chegando à Bruxelas, diante do comissário de polícia que lhe questionava sobre seu primeiro crime não resolvido, Poirot viu-se obrigado a inocentar a única entidade que não tería benefício algum com o assassinato da Internet: “o povo Brasileiro”, dizía o inspetor, “não tería nada a ganhar com esse crime. Creio que o suspeito ainda está no Congresso do Brasil, mas lá há uma polícia curiosa que impede que crimes sejam desvendados”. “Nenhum agente da KGB, nem os nazistas quando ocuparam a minha querida Bélgica, nenhuma trama da Guerra Fria havía sido tão difícil de investigar quanto o Congresso do Brasil. Esse grande país ao sul é um grande mistério também. Espero ser convidado mais vezes para ajudar os Brasileiros a revelerem mais sobre sua história.” registrou Hercule Poirot em seu diário antes de seguir para o Iraque, país no qual investigaría cerca de 718.000 assassinatos ainda sem explicacão.

• • •
 

2 Comments »

  1. Parabéns Zé achei o máximo esta história.
    Mande para o congresso todo. Pode ser que alguém tome alguma providência.
    Mande para o Fernando Gabeira, para o Pedro Simon, para o Jefferson Peres para o Suplici que são as pessoas mais sérias que conheço la dentro daquele antro.
    Um abraço
    Tibeto

    Comment by Roberto Leite — 17 de November, 2006 @ 3:21 pm

  2. Zezin,
    Realmente, o assassino foi contido, só não sabemos por quanto tempo. No fundo, tenho esperança de que o projeto seja tão estapafúrdio que nunca passe em plenário. Vamos acopanhar e ver aonde “cai o pano”…

    Comment by Fernando — 20 de November, 2006 @ 5:05 am

RSS feed for comments on this post. | TrackBack URI

Leave a comment

aqui: