Chegando à cena do crime, o brilhante inspetor Poirot observa cuidadosamente cada metro quadrado dos luxuosos corredores do Congresso Nacional. Estava à procura de uma evidência qualquer, que por ventura tenha sido deixada pelos assassinos da Internet. “Não há crime perfeito” pensou. “Em algum lugar, haverá uma pegada, deixarão uma impressão digital. O assassino se revelará, e revelará, sem querer, o real motivo desse crime covarde que aconteceu dentro do Congresso Nacional.” “Não há crime perfeito”, repetiu silenciosamente o inspetor.
Sem perder tempo, Hercule Poirot iniciou seus trabalhos exatamente como faz há 40 anos decifrando os crimes mais intrigantes pelo mundo afora. Este assassinato em particular lhe chamou a atencão por ter ocorrido na Capital do Brasil, justamente na sede de um dos Três Poderes de uma República democrática.
Hercule Poirot lembrou que ainda não conhecía Brasília, pois o impediram diversas vezes de vir investigar misteriosos crimes ocorridas por aqui entre os anos 60 e 90. “Até hoje eles não resolveram aqueles assassinatos…quem sabe me dão a oportunidade de esclarecer tudo?” Poirot não se entretém por muito com os pensamentos desse passado já distante, e caminha serenamente pelos corredores do Congresso fazendo pequenas anotacões sobre o que observou até aqui. “Este é um assassinato mais sutil…é coisa de mestre” pensou o inspetor ao encontrar os primeiros indicios de um crime bem elaborado.
Sua primeira anotacão dizia: “a morte da Internet aconteceu sorrateiramente, em pleno recesso branco do Congresso Nacional, portanto o assassino não desejava estar sob os holofotes. Devo buscar um suspeito de caráter tímido, recatado. O assassino deve toda sua fama à denúncias da imprensa, que detectou rapidamente algo errado na trama.”. Poirot deduz que alguém ganhará muito dinheiro vendendo certificados digitais, pois só um método criptográfico poderia identificar o usuário de Internet – como desejava o assassino. O inspetor se recorda da época em que foi promulgada a lei do Novo Código de Trânsito do Brasil, que obrigava a venda de kits de primeiros socorros. A notícia havia chegado à Bélgica com grande alarde, pois o Brasil era novamente motivo de chacota no mundo europeu. “Alguém ganhou muito dinheiro com aqueles kits e não foi o povo brasileiro.” Poirot sente que está na trilha certa, seu instinto nunca lhe falhara nos últimos 41 anos.
Segunda anotacão: “o e-CPF ou e-CNPJ terá que ser inserido no PC(ou roteador central da Empresa) para o cidadão ou empresa conectar-se à Internet, de modo a causar uma morte lenta porém silencionsa à grande Rede mundial. Meu suspeito deve, portanto, possuir grande conhecimento de informática. Devo lembrar-me disso mais adiante.” Hercule percebe imediatamente a aparição da sombra de alguém que ganhará muito dinheiro vendendo smartcards, pendrives e leitores de e-CPF para PC’s, empresas e CPD’s pelo Brasil afora. A sombra movia-se sorrateiramente pelos corredores do Congresso, assombrando todos os usuários da Internet livre por onde passava. Sem conseguir identificar o rosto, Poirot percebe apenas que a sombra se desloca com rapidez para o plenarío do Senado. O inspetor não desiste, e persegue a sombra até chegar a uma multidão. Estava ele perdido em meio a uma Sessão Plenária. São muitos rostos familiares, muita gente e muito barulho. Teria sido apenas sua imaginacão ou a sombra pertencia a alguém que tinha grande familiaridade com este local? “É impróprio sequer começar a suspeitar dos representantes do povo aqui presentes”, ponderou o inspetor. Poirot não teve alternativa, senão de admitir a derrota. Ele deixou o suspeito escapar desta vez.
Poirot continou a tomar notas, tentando chegar ao assassino da Internet. “Imagino, portanto, que todo o tráfego da rede do cidadão ou empresa vigiada deverá passar por um filtro que assinará digitalmente cada pacote de dados, de modo a identificar o navegante através de seu e-CPF. A trama é complexa, estou lidando com alguém bem informado. Tenho um perfil quase completo do assassino… estou quase lá.” Seu instinto não lhe falha, Poirot sente que o assassino ainda está dentro do Congresso. É uma ameaca permanente contra o povo Brasileiro e até mesmo contra outros parlamentares. Essa constatacão preocupa o inspetor, é um crime da maior gravidade, o tempo é curto, e a trama precisa ser resolvido logo. Poirot prossegue, anotando a seguinte observacão: “alguém ganhará muito dinheiro fazendo programas para monitorar tudo o que for feito pelo cidadão na Internet. É um artifício necessário, de modo a assinar todo o tráfego autenticado com o e-CPF de quem navega.” Ainda mais animado, Hercule Poirot retorna ao Plenário do Senado e observa calmamente cada rosto, cada expressão. Pequenos gestos podem identificar os assassinos da Internet entre legisladores honestos. O tempo é curto, outras vítimas virão – e Poirot sabe disso.
Mostrando seu conhecimento da Internet, Poirot registra ainda : “o provedor de Internet terá que possuir o identificador Estatal instalado, e terá que adquirir um e-CNPJ por até R$ 475,00. O seu e-CPF e o e-CNPJ farão parte de uma troca de chaves como aquela inventada por Marty Hellman e seu tímido amigo Whitfield Diffie. À partir daí todo o tráfego ficará marcado como tendo ocorrido entre o e-CNPJ do provedor e o seu e-CPF. Este assassino é calculista e tecnicamente afiado no assunto Internet! Devo me cuidar, ele pode estar por perto. ” O inspetor não tem dúvidas: alguém ganhará muito dinheiro também vendendo hardware adicional para os provedores de acesso. “O plano é quase perfeito!” exclamou Poirot. “Os próprios provedores terão que arcar com o custo do assassinato da Internet!”
O inspetor não compreende, entretanto, como é que o assassino da Internet instalará seu programa de e-CPF em telefones celulares e demais aparelhos de pouco poder de processamento que, por ventura, possam vir a se aventurar pela grande Rede. Obrigarão todo mundo a comprar um cartão de e-CPF por R$ 200,00 ou mais? Quem vai pagar o aumento de servidores e maquinário do lado do provedor para aguentar essa carga de criptografia toda e o imenso desperdicio de eletricidade que a criptografia Estatal obrigatória acarretará? Poirot lembra-se imediatamente das pesquisas de Von Neumann sobre computacão reversivel e anota: “todo processo criptográfico, assim como todo processamento de informacão, exige consumo adicional de energia, proporcional à quantidade adicional de informacão a ser processada.” “Se eu preferir Linux ou MacOS, o Estado fornecerá programa filtro para esses sistemas também?”, pergunta-se o inspetor “Como um assassinato tão elaborado poderia ocorrer bem aqui, dentro do Congresso Nacional?”
O inspetor prosseguia com as investigacões quando percebeu estar, repentinamente, rodeado por agentes da Polícia Legislativa.
Poirot: bonjour monsieur policial du Brèsil, é mesmo um crime interessante que temos aqui não acham?
CB Tenório: o único crime que temos aquí é o de sua autoría, seu belga inxerido. Não vê que infringiu a lei de imunidade parlamentar ao investigar um nobre Senador pelo assassinato da Internet?
Poirot: sacre bleu monsieur policial, eu non ia acusar nenhum Senador! Na verdade eu tinha apenas uma sombra como principal suspeita do terrível assassinato de sua Internet que era tão bonita e tão livre! É mesmo um Senador o dono da sombra que eu investigava todo este tempo?
CB Tenório: bom, aparentemente cometi uma pequena gafe. Claro que nenhum Senador tentaria assassinar a Internet. O Sr. deve continuar suas investigacões fora daqui, sinto lhe informar.
Poirot: mas eu estou certo que o assassino da Internet ainda está nos aposentos. Pode ser perigoso. Tenho certeza que criminoso ainda está aqui dentro, entre nós!
CB Tenório: sinto muito inspetor. A única coisa da qual estou certo é que o Sr. deve se retirar imediatamente destes recintos.
Em toda sua carreira, Hercule Poirot nunca havia ouvido falar em imunidade parlamentar para um crime brutal, como aquele do assassinato da Internet. Esse País que acabava de conhecer deixou o inspetor deveras intrigado. Poirot se perguntava “será possível que o assassino da Internet poderia ser um parlamentar eleito pelo povo deste belo País?” “Não acredito” dizia ele…”não acredito”. Embarcando no avião de volta à Bélgica, Hercule Poirot sentia-se frustrado: o Brasil foi o único País do mundo que impediu o famoso inspetor de desvendar um crime! “País curioso”, pensou ele. “Aqui eles tem medo de que a verdade apareça, por algum motivo que eu não consegui explicar durante os 20 minutos que eu investiguei este crime. É um povo simpático, mas gosta de prolongar mistérios! Era só uma questão de mais 30 ou 40 minutos para que eu apontasse o verdadeiro assassino da Internet no Brasil. Mas por algum motivo agentes do Estado me impediram de prosseguir. C’est la vie. Au revoir Brèsil!!! “, dizia uma anotacão final.
Chegando à Bruxelas, já diante do comissário de polícia que lhe questionava sobre seu primeiro crime não resolvido, Poirot viu-se obrigado a inocentar a única entidade que não tería benefício algum com o assassinato da Internet: “o povo Brasileiro”, dizia o inspetor, “não teria nada a ganhar com esse crime. Creio que o suspeito ainda está no Congresso do Brasil, mas lá há uma polícia curiosa que impede que crimes sejam desvendados”. “Nenhum agente da KGB, nem os nazistas quando ocuparam a minha querida Bélgica, nenhuma trama da Guerra Fria havia sido tão difícil de investigar quanto aquele assassinato ocorrido dentro do Congresso do Brasil. Esse grande país ao sul é um grande mistério também. Espero ser convidado mais vezes para ajudar os Brasileiros a revelerem mais sobre sua história.” registrou Hercule Poirot em seu diário antes de seguir para o Iraque, país no qual investigaría cerca de 718.000 assassinatos em uma guerra que continua sem explicacão.
Parabéns Zé achei o máximo esta história.
Mande para o congresso todo. Pode ser que alguém tome alguma providência.
Mande para o Fernando Gabeira, para o Pedro Simon, para o Jefferson Peres para o Suplici que são as pessoas mais sérias que conheço la dentro daquele antro.
Um abraço
Tibeto
Zezin,
Realmente, o assassino foi contido, só não sabemos por quanto tempo. No fundo, tenho esperança de que o projeto seja tão estapafúrdio que nunca passe em plenário. Vamos acopanhar e ver aonde “cai o pano”…