jan 2007 25

Antiga Tchecoslováquia, 25 de Janeiro de 1921 – durante a peça de teatro de Karel Capek, a palavra “robô” é usada pela primeira vez na história. Significava “trabalho forçado” em idioma Tcheco e foi usada na peça para descrever uma “pessoa automática”.

Hoje, 86 anos depois, alguns dos cientistas da computação mais respeitados do mundo já estudam meios de proteção contra o que chamam de “a inevitável supremacia das máquinas”. Com o atual ritmo de sofisticação e miniaturização, algumas revistas especializadas em computação já trazem artigos afirmando que é apenas questão de tempo para que computadores tenham poder de raciocínio e armazenamento semelhante ao de nossos cérebros.

Será um debate intenso, e o assunto deverá causar muita polêmica no futuro próximo. Imagine as implicações do avanço cibernético, em especial para as diversas religiões. Máquinas sem sentimentos(e sem fé) circulando por aí nuas e completamente agnósticas, livres de crenças e religião? Ou elas desenvolverão “a alma” e, uma vez que consigam aprender, também buscarão refugio na fé? Robôs irão à missa por vontade própria?

Máquinas que consigam aprender desenvolverão contradições e imperfeições como as que temos nós, seres humanos? Máquinas sentirão amor por outras máquinas ou por nós? Desenvolverão quais outras emoções? E se desenvolverem alma, fé e amor, ficará provado que não fomos criados por Deus? Ou as máquinas, sendo criação da criação de Deus, serão consideradas feitas por Deus também?

A máquina criada pelo homem tem o direito de conviver com seres criados “à imagem e semelhança de Deus”? Elas terão informação suficiente para montar máquinas semelhantes com peças vendidas no mercado, portanto elas se procriarão livremente? E pense no mercado de trabalho e nas diversas tarefas da nossa rotina que serão desempenhadas por autômatos! Tudo isso já foi mais que explorado em filmes, livros, e por aí vai…mas, e se tudo isso puder ser tornar realidade? Você já parou para pensar que tudo isso pode estar a apenas 2 ou 3 décadas de nós?

Mas, relaxe, por enquanto há alguns grandes obstáculos científicos para que os robôs dominem a terra! A ciência da computação ainda não resolveu alguns sérios problemas que impedem as máquinas de serem mais parecidas conosco. E, quem sabe, não hajam alguns problemas divinos também? Aproveitando o aniversário da criação da palavra “robô”, escrevo para vocês alguns pensamentos soltos sobre tudo isso.

Um dos principais problemas que ainda existem para que as máquinas se misturem a nós, é que nenhuma criação humana jamais passou no “teste de Turing”, desenvolvido pelo pai da computação moderna – o Inglês Alan Turing. Nesse teste, a máquina é colocada atrás de uma “cortina”(ou parede, outro quarto ou sala, etc), e diversas pessoas são convidadas aleatoriamente para “conversar” com o ser que se encontra atrás da divisória, sem ver o que está do outro lado(alguém lembrou do Mágico de Oz?). Pode haver um “intérprete” que digita a conversa e responde com sua voz, ou pode haver um teclado e monitor.

Se as pessoas que participam do teste não notarem algo estranho na conversa, a máquina passaria no teste. Isso ainda está para acontecer.

Outro empecilho, é que todas as máquinas automáticas devem ser construídas levando-se em consideração as 3 leis da robótica de Isaac Asimov. Estas regras devem ser implementadas em firmware no “cerebro” dos robôs, para que estes sejam incapazes de nos causar danos ou se tornarem hierarquicamente superiores a nós. Isso, claro, terá que ser regulamentado por leis internacionais assim que o assunto se tornar relevante(o que deve acontecer apenas no futuro distante). E, será inevitável, quando criminosos criarem robôs sem essas leis implementadas em seus cérebros(lembrou do temido ED-209 de Robocop?) – como vamos reagir? Criaremos Robocops do bem para combater as máquinas do mal? Alguém mais se lembrou de “Eu, Robô”, obra de Isaac Asimov popularizada em 2004 no filme com Will Smith?

O hardware eletrônico da atualidade é, também, incapaz sequer de se aproximar à sofisticação de um cérebro humano. Para simular a capacidade de aprendizado de uma criança usando discos rígidos da atualidade, seriam necessários andares inteiros de discos SATA de 300 gigabytes funcionando dia e noite em capacidade máxima. Além disso, a tecnologia de bancos de dados teria que ser tão sofisticada como aquela de nosso cérebro para possibilitar a busca eficiente de informações consideradas “relevantes” sobre assuntos e experiências ocorridas há 20 ou 30 anos talvez. Aquilo que fazemos com naturalidade a todo instante exigiria um aparato artificial de enorme complexidade: gravar e recuperar memórias distantes no contexto correto da conversa atual. Note-se que os computadores mais avançados do mundo falham miseravelmente nesta tarefa. (E ainda reclamamos de nossa memória!)

A lógica binária dos computadores é adequada ao aprendizado automático? Não sabemos, ao certo, se a lógica binária, ou aquela difusa, aplicada de maneira suficientemente rápida ou sofisticada poderia simular o processo cognitivo do cerebro humano. Nós não somos seres lá muito lógicos, já perceberam? O comportamento errático do ser humano provém de falhas lógicas em nosso cerebro, ou de um avançado sistema de auto-proteção? Nosso esquecimento de certos fatos não seria um mecanismo de defesa?

Como você pode ver são inúmeras as perguntas e eu definitivamente não sou expert no assunto. Todas essas dúvidas precisariam ser melhor explicadas por um expert em inteligência artificial e robótica.

O fato é que o perigo da dominação pelas máquinas não é mera ficção. Tampouco é um perigo lá muito distante – é algo a ser levado a sério na atualidade. Muita gente pensa em ficção apenas como brincadeira, como um bom filme. Caso os computadores quânticos se tornem realidade em breve, ou haja um outro salto enorme na tecnologia da computação, a ética na robótica pode-se tornar assunto de extrema importância logo aí nos próximos anos – depende apenas de nossa capacidade tecnologica: processamento, armazenamento e busca eficiente de dados, inteligência artificial e por aí vai.

Portanto fica aí registrado, em nossa seção de “cultura quase inútil” de hoje: há 86 anos um escritor de peças teatrais, de um país que não existe mais, criou a palavra “robô” para descrever um ser humano escravizado e que trabalhava forçadamente.

Um Comentario

  1. zencrk disse:

    Me fez lembrar do livro Neuromancer, de Willian Gibson.
    Acho que ainda existe o jogo em algum abandoneware da vida.

O que você acha?