fev 2009 15

A Reuters publicou uma notícia que me chamou a atenção: Cuba teria finalmente criado uma distribuição Linux própria e estaria em processo de migração de todos seus computadores estatais para ela.

Confesso que fiquei surpreso com a notícia. Não pela questão técnica, porque não duvido que os Cubanos possam criar uma distribuição excelente. Fiquei surpreso, sim, ao descobrir que Cuba, até hoje, não tinha tornado institucionalmente obrigatório o uso de software livre nas suas dependências estatais. Tinha em mente que o uso de Microsoft Windows por lá era simplesmente proibido. Eu estava enganado – não só não é proibido, como o governo Cubano parece fazer vista grossa do uso desse sistema em cópias piratas, e o governo de Raúl Castro tem seguido a tendência do governo de Fidel de adotar muito lentamente o software livre.

Pior, fazendo uma retrospectiva rápida, podemos ir além e concluir que, de 1980 para cá, nenhum país do chamado “bloco socialista” apoiou, de fato, o movimento do software livre.

Jamais havia me questionado sobre o assunto mas, realmente, saber que apenas em 2009 a ilha decidiu substituir oficialmente(com ações concretas) o Windows por Linux demonstra que há um vácuo imenso entre o discurso oficial e a prática. Um movimento que teve início nos anos 1980 e que, por muito tempo, foi considerado “contrário aos princípios do mercado” não teve qualquer apoio institucional do bloco socialista. Essa constatação é, no mínimo, intrigante.

Uma reportagem falando sobre a migração ao software livre em Cuba afirma que “apesar de [Cuba] ter proclamado sua intenção de migrar todos seus sistemas para software livre em 2005, os esforços neste sentido parecem depender mais de pequenos grupos de entusiastas do que de apoio politico e institucional do governo Cubano”

Segundo a mesma reportagem, o professor Yudivián Almeida, da Universidade de Havana afirma que “ainda há grande resistência à mudança”.

É claro que a Internet propiciou a globalização do software livre, o próprio Linux só foi possível devido à colaboração global através da grande rede. O acesso das massas à Internet só foi possível após o fim da guerra fria, com a transferência do controle da Internet de militares da DARPA para civís do InterNIC em 1992. O fato do desenvolvimento do Linux ter explodido nessa época não é mera coincidência. Devemos admitir que a Internet foi o grande catalisador do movimento do software livre, mas, em termos históricos, o questionamento à falta de apoio político do bloco comunista ao software livre ainda é válido.

Richard Stallman - Pai do movimento pelo software livre

Richard Stallman - Pai do movimento pelo software livre

Em 1983 Richard Stallman iniciou o projeto GNU, produzindo um compilador excelente da linguagem C(GCC, o mais utilizado até hoje), um editor de textos poderoso(Emacs) e deu início ao trabalho num kernel Unix livre(HURD), projeto que não obteve sucesso mas inspirou muitos outros posteriormente. Hoje o projeto GNU é a força motriz por trás do Linux, OpenSolaris, FreeBSD, NetBSD, OpenBSD e inúmeros outros.

Segundo Eric Raymond, em seu livro “The Art of Unix Programming”, o software livre só decolou no “mundo capitalista” quando o nome “software livre” foi substituido por “software aberto”. Por que? Para evitar conotações socialistas e, segundo o próprio Raymond, “retirar a carga ideológica do projeto de Richard Stallman”. A mudança para “OSS” ao invés de “Free Software” pegou embalo em 1998 quando as fundações Mozilla, Apache, X e por aí vai todas concordaram em utilizar o termo “software aberto” ao invés de free software. Foi só então que a IBM e outros gigantes capitalistas adotaram o Linux como alternativa à Microsoft.

Ou seja, o mercado teve a “preocupação”, ou puro preconceito ideológico, de evitar conotações socialistas no uso do software livre, mas Cuba não se importou nem um pouco com a mensagem política enviada ao mundo ao permitirem o uso do Microsoft Windows até os dias de hoje?

Vejam só. Eis que uma década depois da mudança da tarja de “free software” para “open source”, Cuba ainda não havia realmente, de fato, abraçado a causa. Isso nos diz algo ainda mais marcante: até 1998 nenhum país “socialista” havia utilizado politicamente o software livre. China, Cuba e até mesmo a URSS não enxergaram o potencial do software livre nos anos 1970, ou na década de 80 quando Ronald Reagan os chamava de ‘Império do Mal’, ou até mesmo na euforia do mundo pós-Guerra Fria dos anos 90?

Toda aquela “birra” ideológica do início do novo mliênio, de que o software livre seria uma afronta ao mercado livre, não passou de marketing de empresas de software fechado para tentar evitar que uma metodologia mais inteligente de compilação de conhecimento humano prejudicasse seus lucros.

Hoje podemos concluir que, enquanto Richard Stallman lutava para que todo software fosse aberto e naturalmente acessível por todas as classes sociais, todo o bloco socialista ignorou solenemente aquele que poderia ter sido um de seus maiores trunfos: o software livre.

Em “Cyberpunk”, o jornalista John Markoff narra a história de “Pengo”, um hacker de Berlim oriental que se infiltrava em computadores dos EUA, roubava código fonte e depois vendia para agentes secretos do bloco socialista. A Russia preferiu a pirataria ao invés de apoiar Stallman e todo o movimento de software livre dos anos 1980.

Em retrospectiva, notamos que enquanto Bill Gates dava uma surra no software livre e se tornava o homem mais rico do mundo vendendo código fechado, todo o bloco socialista ficou passivo, observando a luta dos hackers anarquistas pelo direito ao acesso à tecnologia por todas as classes sociais.

O caso do hacker “Pengo” ilustra como a URSS preferiu comprar mercadoria ilícita de hackers adolescentes à ter uma política institucional de apoio ao software livre. O que poderia ter sido mais poderoso como arma ideológica do que uma iniciativa soviética de apoiar o “Free Software” produzindo compiladores grátis e sistemas operacionais de alta qualidade inteiramente livres de royalties de corporações e governos estrangeiros? Imagine se o software livre tivesse apoio do bloco comunista e algo semelhante ao Linux tivesse nascido em 1980…

Ainda segundo a reportagem, em pleno 2009 Cuba utiliza Linux em apenas 20% de seus computadores. Podemos supor, com pequena margem de erro, que os outros 80% de computadores de Cuba utilizam alguma versão do Microsoft Windows.

A estimativa de um especialista da Universidade de Ciência de Informação de Cuba é de que em 5 anos 50% dos computadores da ilha estejam rodando Linux. Espera aí, 5 anos para atingir 50%???!!! É inacreditável.

Torço para que a distro Nova Linux de Cuba tenha sucesso e que todos os cubanos tenham acesso livre à nova distro. Na verdade Cuba deveria simplesmente banir imediatamente a pirataria de sistemas Microsoft Windows e abrir completamente o acesso do povo Cubano ao NetBSD, FreeBSD, Apache, Linux, Mozilla e demais projetos abertos.

Um pequeno retrospecto histórico nos mostra que já passou da hora, e muito.

2 Comentarios

  1. Oi, conheci hj por “acaso” teu blog e agradeco. Li varios textos e os admiro, alem de serem ispiradores…
    abraco

  2. Marques Callef disse:

    Cara,não adianta, o bloco socialista não deu apoio e se algum dia isso acontecer,será em outra encarnação.O PC cubano p/ exemplo tem pessoas mais gananciosas do que o Bill Gates e jamais vão querer que os cubanos tenham total acesso a internet ou ao open source,pois pra eles isso seria ferramenta de “subversivos”.

O que você acha?