fev 2008 05

Um interessante artigo da IT Management especula sobre os motivos pelos quais o OS/2, que um dia já foi o carro-chefe dos sistemas operacionais para PC’s da IBM, jamais foi lancado como projeto de Software Livre.

O produto foi descontinuado em 1997 e completamente retirado do mercado em 2005. Ou seja, seu valor tende ao zero a cada dia que passa. Por que a IBM tem negado liberar o código?

Será que o código ainda existe?
O artigo traz algumas hipóteses, entre elas a de que a IBM simplesmente não tenha mais o código fonte todo organizado e que portanto sairía caro demais empacotá-lo num .tar.gz para a alegria da comunidade SL. Ou que talvez tenha sido destruído. A possibilidade existe, principalmente a de uma destruicão proposital do código. Os escritórios IBM em Boca Raton(seguindo pela famosa avenida A1A ao norte de Miami) onde o OS/2 foi, em grande parte, desenvolvido já não existem mais, e há a possibilidade da propriedade intelectual alí produzida ter sido perdida. A reportagem cita pelo menos uma fonte da IBM que afirma que essa hipótese é plausível.

E vale lembrar que em 1997 a idéia de liberar código fonte de sistemas corporativos ainda não era lá considerada muito inteligente. Muito menos código produzido em parceria com a Microsoft, conforme discutiremos adiante.

Java e o Solaris custaram bilhões – e a Sun abriu
Hoje, com o Java e o Solaris abertos por exemplo, sabemos que projetos de bilhões de dólares estão sendo desenvolvidos muito mais rapidamente pela comunidade do Software Livre do que estaria sendo no ambiente fechado dos anos 80 e 90. Mas, em 1997 a IBM jamais poderia sonhar em “dar de presente”(era assim que muita gente pensava sobre o Software Livre então) um trabalho colossal como o OS/2. Naquela época o Software Livre era visto como um movimento ideológico e não como uma metodología de trabalho extremamente eficiente.

O pioneiro do Unix Eric Raymond, em seu livro “The Art of Unix Programming”(que você pode ler gratuitamente clicando aquí) afirma que a grande virada na visão do Software Livre como instrumento eficiente de compilar conhecimento humano, e não como ideología, foi em 2000. Nesse ano o mundo corporativo adotou de vez a metodología aberta como parte de sua estratégia.

Mesmo assim, com seus principais rivais adotando o Software Livre e a cada dia mais enfraquecida no mercado de PC’s, a IBM não liberou o código do OS/2, preferindo vê-lo desaparecer. Posteriormente, a IBM vendeu sua unidade de PC’s para um grupo Chinês. E assim, a empresa que tem o nome sinônimo com computacão, e que criou o IBM-PC, saiu do ramo, pela porta dos fundos. Uma empresa inteligente como a IBM não faria isso se não houvesse um motivo muito forte.

A Microsoft tem uma arma encostada nas costas da IBM?
Outra possibilidade, na minha opinião mais provável, seriam as implicacões legais da liberacão do código fonte do OS/2. Vale lembrar que o OS/2 já foi um projeto conjunto da Microsoft com a IBM. As duas empresas separaram os projetos e cada uma ficou com código que havía sido desenvolvido até aquele momento. O da Microsoft se tornou o Windows NT e o da IBM o OS/2 Warp. Talvez existam cláusulas desse acordo de separacão que tornem impossível a divulgacão do código pela IBM. A única empresa que ganha com o segredo do OS/2 é a Microsoft. A IBM, como já falamos acima, nada tem a ganhar com um produto descontinuado.

Um dos maiores segredos do Windows NT é o seu sistema de arquivos NTFS. Apesar do esforco de milhares de hackers de todo o mundo, até as versões mais recentes o Kernel Linux era incapaz de utilizar esse sistema de arquivos. Certo dia decidí arriscar e o Linux simplesmente destruiu um disco NT que eu tinha usado em testes. Talvez o NTFS seja um dos motivos para que a IBM não possa liberar o código do OS/2. Enfim, mais um motivo que só beneficia a Microsoft.

Minha opinião? Bem, eu acho que está mais para o problema legal mesmo com a Microsoft e outros que licenciaram o sistema IBM, entre eles governos. Existe a possibilidade forte do OS/2 ter sido usado em sistemas militares dos EUA e, assim, ter seu código considerado segredo até daquí a 30 anos(ou algo por aí).

Mas tem uma outra possibilidade, e está bem próxima a nós aquí no Brasil.

O OS/2 é o sistema operacional de centenas de milhares de caixas eletrônicos. Por aquí, se você passar por um caixa eletronico vermelhinho “24 Horas”, entre outros, que deu pane, verá que na telinha de boot aparece o logotipo IBM OS/2 Warp todo orgulhoso. Até um tempo atrás o Banco do Brasil utilizava OS/2 em seus equipamentos de auto-atendimento também, não sei como anda hoje. O que nos tráz à questão da seguranca do OS/2.

Seria ele um sistema seguro? Se nos basearmos no Windows NT nós temos todos os motivos para desconfiar que não e, pelo contrário, trata-se de um sistema bastante vulnerável.

O fato de não conhecermos muitas falhas de seguranca no OS/2 vem, na minha opinião, de 2 causas muito simples:

1) Internet: o OS/2 não chegou a ser amplamente testado nem como sistema caseiro ou como sistema de servidores na Internet
2) Forca Bruta: se você for pego testando a seguranca de um caixa eletrônico, provavelmente será preso

Então eu desconfio que, se nos basearmos na quantidade de furos de seguranca que descobriram no Windows NT de 1997 em diante, o código do OS/2 provavelmente não é exatamente um caixa-forte. Se isso é verdade, e a IBM divulgasse o código-fonte, vandalos poderiam estudar o ataque preciso no código fonte e então centenas de milhares de caixas eletrônicos estariam subitamente abertos a todo tipo de fraude.

O nome disso é seguranca por obscuridade, e foi o ponto fraco do Windows dos anos 90 para cá. A Internet permitia a divulgacão de uma informacão no que os hackers chamam de “tempo zero”, ou seja, garantir a seguranca digital por um segredo não funciona na Internet. A seguranca tem que ser por mecanismo, por política, e não por obscuridade. Um exemplo triste disso era a senha “Microsoft Barney” que vinha oculta no código compilado do programa de Planilhas Excel. Nos anos do DOS e dos usuários desconectados, o segredo jamais vazou. Mas na Internet alguem descobriu e divulgou a senha que era capaz de abrir todos os documentos Excel, mesmo os codificados com a “protecão” da senha Excel. Esse tipo de prática era muito comúm nos anos 80 e 90.

Mas, como vimos no Iraque, os George Bush dos anos 80 conseguiam manter em segredo coisas que não são mais possíveis esconder pelos George Bush dos anos 2000. O mundo mudou, e o OS/2 ficou para trás.

Confira o artigo clicando aquí.

2 Comentarios

  1. Pretus disse:

    Linux ja tem acesso a sistema de arquivo NTFS faz um bom tempo…

    até o ubuntu já tem suporte nativo pra acessar os arquivos em NTFS.

    O Linux só não usa o NTFS pra instalação do sistema, uma porque é um SO diferente e tem seus próprios Filesystems e outra porque o sistema pertence à micro$oft…

    abraço

  2. jfonseca disse:

    Olá Pretus, o acesso a NTFS do Linux ainda é extremamente frágil, mesmo nos kernels mais recentes.

    Quando utilizado apenas pra leitura não encontrei problema algum, mas a escrita em NTFS ainda é um problema, não é um sistema pronto para produção.

    Obrigado pela visita e pelo comentário. Volte sempre!

    Um abraço,

O que você acha?