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Sobre a prova de TI do concurso para o TST 2017

Eis que, após 5 anos sem fazer um concurso público, fiz a prova para Analista de Sistemas (opção C03) no concurso do TST 2017.  A banca escolhida foi a Fundação Carlos Chagas.

Resumo: o TST e a FCC apagaram a Ciência da Computação da prova de Análise de Sistemas. E métodos ágeis apareceram no edital só para confundir.

Prova Discursiva

A banca deu um drible em todos que estudaram focados no edital.

A discursiva inteira foi em cima de documentação(Business Process e UML) e procedimentos(ITIL) – duas coisas que são explicitamente preteridas no Manifesto Agil. Como no edital não foi citado o RUP, mas apenas métodos ágeis, especulei que o foco não seriam métodos de documentação e ferramentas específicas. Ledo engano. A prova inteira foi sobre documentação, ferramentas/sintaxe e procedimentos.

Por falar em manifesto ágil …

Scrum e Kanban sumiram….

Scrum e Kanban foram citados no edital, com a mesma ênfase de ITIL.

Só que ITIL definiu quem vai ser aprovado e Scrum caiu apenas em 2 sub-ítens de uma questão. Scrum e Kanban apareceram em dois itens dentre 5, de uma questão entre 40.

Ou seja, Scrum e Kanban valeram cerca de 1% da prova objetiva. No todo, então, levando em conta conhecimentos gerais e a discursiva, valeram uma minúscula fração.

Novamente, um edital que só citou métodos ágeis cobrou tudo ao contrário.

… e a Ciência da Computação também sumiu…

Caíram zero questões de Ciência da Computação. Em outras palavras, na prova de analista de sistemas do TST não houve sequer um algoritmo para analisar, nenhuma estrutura de dados, nenhum conceito de lógica de programação foi abordado.

O TST e a FCC apagaram a Ciência da Computação da prova de Análise de Sistemas.

Em suma, o candidato aprovado não precisa saber o que é uma lista, um algoritmo de ordenação ou recursão.

Foco em Gestão

A prova discursiva vai selecionar administradores de empresas, PMPs (project management professionals) e gestores de TI.

Quem memorizou ITIL, COBIT e PETI se deu bem. O estudo de caso girou em torno de ITIL, BPM e UML.

Com certeza não foi uma prova para programadores, engenheiros de software e analistas de sistemas propriamente ditos.

Oracle

Entre os mil e um assuntos relevantes sobre Oracle, caiu uma questão sobre a query MERGE. Eis a questão (clique para ampliar):

Traduzindo, não procuram conhecimentos gerais sobre Oracle – o assunto apenas constou. SQL Server foi cobrado, implicitamente, nessa mesma questão, já que essa consulta é válida tanto em Transact-SQL quanto em PL/SQL. No mais, SQL Server também levou um sumiço.

(E quem for aprovado neste concurso provavelmente jamais usará uma query MERGE.)

XML

De todos os assuntos que poderiam ter sido explorados, cobraram uma questão sobre DTD.

Ou seja, é como se fizessem uma pergunta sobre o compilador de Java em vez de falar da linguagem.

O DTD é parte da validação de XML, não da linguagem em si.

Enfim, também incluíram só para constar XML em algum lugar já que havia sido citado no edital (fora uma outra pergunta sobre SOAP).

XP – eXtreme Programming

XP também foi apenas mencionada em um item da mesma questão sobre Kanban e Scrum. O item estava dado de presente também.

Na última prova do TST o XP foi objeto de uma redação discursiva. Nesta foi 0,5% da prova.

Realmente os concursos de TI parecem uma loteria.

Conclusão

Foi uma prova para recrutar profissionais de gerenciamento de projetos que tenham noções de TI. Um administrador de empresas que tenha boas noções de TI teria se saído bem, especialmente devido ao material cobrado na prova discursiva.

A parte técnica da prova foi muito tranquila, com perguntas superficiais sobre tags HTML, PHP e afins e, convenhamos, foi 100% decoreba.

Raciocínio lógico não foi cobrado. Não houve qualquer questão sobre Ciência da Computação tampouco, nem de matemática básica. A única conta aritmética necessária foi para calcular a faixa de avaliação de riscos, multiplicando (1 ou 2) x 3 x 50.

Podemos especular que intenção do TST seja de terceirizar o desenvolvimento de sistemas e manter internamente apenas uma equipe de gestores experientes em ITIL e COBIT para gerir os eventuais contratos. Talvez tenha sido esse o propósito deste certame, visto que de imediato há apenas uma vaga a ser preenchida e talvez a área com vacância tenha este perfil mais gerencial.

Mas, cá pra nós, realizar um processo de seleção dessa magnitude para preencher apenas uma vaga de gestor, exigindo diploma de computação?

Realmente o Banco Mundial tem razão, o Brasil gasta muito e gasta mal.

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