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Stiglitz derrapa ao falar mal do Bitcoin

O economista Joseph Stiglitz fez duras críticas ao Bitcoin em entrevista publicada esta semana. Nos anos 1990, Stiglitz foi um dos responsáveis pelo sucesso da política econômica de Bill Clinton. O mundo ainda não viu um período tão próspero quanto aquele vivido pelos EEUU após o colapso da URSS. Na mesma época, Stiglitz foi um dos críticos da globalização, assunto sobre o qual ele estava coberto de razão mais de 20 anos antes dos efeitos nefastos desse processo tornarem-se evidentes. Hoje vemos que a globalização foi um desastre, e países como o Reino Unido e Estados Unidos tentam desfazer os erros cometidos 25 anos antes.

No entanto, ao falar de Bitcoins, Stiglitz derrapou. Confesso que esperava críticas mais profundas, vindo de quem vem, como por exemplo o fato do Bitcoin ser uma moeda deflacionária, cuja perda é impossível de ser reposta.

Vale a pena comentar alguns dos pontos levantados na entrevista.

> “Por que as pessoas querem bitcoins? Por que as pessoas querem uma moeda alternativa? A verdadeira razão pela qual as pessoas querem uma moeda alternativa é participar de atividades ilícitas: lavagem de dinheiro, evasão fiscal”.

Todo o dinheiro que ingressa no universo do Bitcoin, necessariamente, tem que vir dos bancos tradicionais. Não há meios para se comprar grande volume de Bitcoin, como é necessário na lavagem de dinheiro, utilizando cash ao portador. Tem que haver uma transferência eletrônica qualquer em alguma etapa do processo de aquisição de Bitcoins. Se é que existe lavagem de dinheiro em Bitcoins, essa atividade ilícita passa, primeiramente, pelos bancos tradicionais.

Logo a crítica à criptomoeda não é cabível. O problema da lavagem de dinheiro e da evasão fiscal existe independente da moeda de troca empregada, ele ocorre antes dos valores chegarem ao universo das criptomoedas e deve ser combatido lá.

> “O que realmente devemos fazer”, disse Stiglitz, “é exigir a mesma transparência nas transações financeiras com bitcoins que temos com os bancos”.

Primeiramente, qual o real nível de transparência dos bancos tradicionais? É possível visualizar, publicamente, o livro-caixa dos bancos? Já o livro-caixa do Bitcoin é público e pode ser verificado por qualquer pessoa.

Ao contrário do que muitos tem dito, no sistema Bitcoin temos transparência absoluta. A sensação de anonimato obtida com Bitcoin, por usar um endereço alfanumérico esquisito, é totalmente falsa. É possível rastrear todas as transações em Bitcoin desde o primeiro bloco minerado (chamado de “bloco gênesis”) até as menores transações pulverizadas na tentativa de ocultar a origem. Os dados do Bitcoin são 100% públicos e podem ser auditados por qualquer pessoa. E os dados dos bancos tradicionais? Podem ser livremente auditados?

A identidade dos autores de transações em Bitcoin não é conhecida a priori, mas não há como mover sequer uma minúscula fração de Bitcoin sem que o mundo todo saiba. Então, se as autoridades chegarem à origem da primeira transação suspeita de atividade ilícita, chega-se a todas as demais transações.

> Mas se isso [endurecimento com atividades ilícitas em BTC] for feito, acredita o economista, o bitcoin “simplesmente entraria em colapso”.

Há quem diga o mesmo do sistema bancário tradicional. No Brasil, temos o exemplo de dois mega escândalos políticos que estouraram na última década. Todo o dinheiro das falcatruas descobertas, tanto na Operação Lava Jato quanto no “Mensalão”, fluíram livremente pelo sistema bancário sem que os autores fossem incomodados pelas autoridades.

Esse problema não é particular ao Brasil. Todo o dinheiro sujo, oriundo de atividades ilícitas ao redor do planeta, flui por meio de bancos tradicionais. E as autoridades, por melhor equipadas e treinadas que sejam, não são capazes de interromper o processo do crime internacional. Recentemente, tivemos a divulgação dos Paradise Papers, que seguiu a divulgação dos Panama Papers. Ambos casos, devidamente abafados pela grande imprensa, mostram a corrupção generalizada no sistema financeiro/empresarial internacional.

Qualquer recurso ilícito que se encontre depositado em Bitcoin veio, necessariamente, de um banco tradicional.

A interface entre Bitcoins e o sistema financeiro é a mesma que existe com as obras de arte, gado e animais para procriação e abate em geral, terras e outros bens de difícil rastreabilidade que são adquiridos para ocultar valores ilícitos. Se realmente existem valores ilícitos depositados em Bitcoin, eles tem a mesma origem que aqueles depositados em obras de artes utilizadas para o mesmo fim. Segue que o problema não é o Bitcoin, e sim a prática ilícita que ocorreu antes do Bitcoin ser envolvido na transação.

Não é o primeiro laureado com Prêmio Nobel que faz críticas ao Bitcoin. Paul Krugman também fez críticas às moedas virtuais. Soma-se às críticas feitas pelos presidentes do Goldman Sachs e do JP Morgan, os dois maiores bancos do mundo. Coincidentemente, todos utilizam os mesmos termos e argumentos empregados por Joseph Sttiglitz.

O Bitcoin está incomodando o establishment financeiro tradicional. E nós, meros mortais, só temos a ganhar com isso.

 

Foto: World Economic Forum, via CC/Wikipedia

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