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E nossas urnas eletrônicas seguem inseguras para 2018.

O ex-Secretário de Defesa norte-Americano, Donald Rumsfeld, respondeu a uma pergunta de entrevista de forma tão inusitada que sua resposta se tornou um exemplo de como falar ao público sem que ninguém consiga entender uma só palavra. Uma tradução livre do que ele disse seria algo assim:

“Reportagens que dizem que algo não ocorreu sempre me interessam, porque conforme sabemos, existem coisas sabidas que sabemos e há coisas que sabemos que sabemos. Também sabemos que existem coisas sabidas que não sabemos, o que significa dizer que sabemos que há coisas que não sabemos. Mas, também, há coisas que não sabemos e que não são sabidas, as que não sabemos que não sabemos. E, se você olhar na história de nosso país e outros países livres, são essas últimas que tendem ser as mais difíceis.”

Entendeu?

A frase faz sentido. O fato de sabermos que algo existe não comprova que o resto que não sabemos não existe. É uma consequência de falácias que vem do mau uso da “prova por contradição” e do “terceiro excluído”, usadas na lógica clássica e proibidas na lógica intuicionista. Isso, infelizmente, é mais comum do que se pensa. Encontra-se um caso específico onde temos conhecimento de algo e, mentalmente, generalizamos a negação do contrário para todos os casos.

Já os lógicos intuicionistas acreditam que não existe a prova por contradição. Por exemplo, pelo fato de não encontrarmos um número maior que todos os outros, isso não prova que existem infinitos números. Para provar a existência de números infinitos, de acordo com a lógica intuicionista, deveríamos construir uma prova direta dessa hipótese, o que até hoje ninguém conseguiu. Então, usando a lógica clássica, na ausência de prova do contrário, admitimos a existência de infinitos números.

O que Rumsfeld disse é, na verdade, análogo à nossa dúvida quanto às provas por contradição. Ora, se não encontramos prova de contradição de um caso, extrapolamos para todos os casos – e isso funciona muitas vezes, mas vez e outra gera um problemão. Ou seja, o fato de sabermos muita coisa não exclui a ocorrência de problemas que vem daquilo que não sabemos, e segundo Rumsfeld, aí se encontra uma das dificuldades da administração pública.

E o que isso tem a ver com as nossas urnas eletrônicas para 2018?

Sabemos que já foram encontrados incontáveis problemas com as urnas desde ~20 anos atrás quando começaram a ser usadas. E, com base nos erros já corrigidos, o TSE anuncia que elas são perfeitamente seguras.

No entanto, o TSE atropela aquilo que não sabemos que não sabemos. E o resultado é que, a cada 4 anos, descobrimos novos problemas com as urnas que 4 anos antes não sabíamos que não sabíamos. Está dando para acompanhar?

A cada nova eleição, técnicos sentam-se à frente das urnas e descobrem mais e mais problemas. Nos poucos, e restritos, minutos que são dados aos técnicos, normalmente são encontradas 1, 5, 10 falhas. Imagine se o código e o hardware das urnas fossem totalmente livres?

O problema todo é que o TSE alavanca o fato de não sabermos o que não sabemos. As propagandas deviam dizer “olha, nós não sabemos de nada errado nas urnas, logo até onde sabemos elas são seguras, mas não sabemos o que não sabemos ok?”. Mas, é claro, você não verá essa propaganda (ou, talvez, o CONAR censuraria).

A questão é que seguimos rumo a 2018 com urnas eletrônicas que não imprimem o voto. Isso é um problemão, e a justificativa dada é a pior de todas: “não temos dinheiro”. Ora, camarada, vocês tem dinheiro, sim. E se realmente não tem, então o que é feito com tanta arrecadação?

Referências

Teste em urnas eletrônicas identifica três falhas; TSE diz que não há riscos em votação

Técnicos conseguem invadir urna eletrônica durante teste; TSE diz que falhas serão corrigidas

Grupo hacker diz que urnas eletrônicas do Brasil são propositalmente falhas e acusa vulnerabilidades

Urnas eletrônicas: falhas, vulnerabilidades e fraudes do mesário

Hackers apontam falhas digitais nas urnas eletrônicas

 

 

Foto: Cherie Cullen / DoD USA

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