Redes Sociais

Sobre as Eleições 2018

Ano passado defendi que os campos de comentários da WWW deveriam ser fechados. Pouca coisa realmente útil pode ser encontrada nesses espaços e a grande maioria das participações não passam de ofensas, provocações, fake news e daí por diante.

Como já se imaginava, as eleições de 2018 foram um excelente laboratório para observar a participação popular nas redes sociais, e os espaços de comentários não contrariaram minhas expectativas. Realmente foi um espetáculo de baixarias.

Acusações de que robôs consumiam boa parte desses espaços não faltaram, o que chamaria a atenção de qualquer desenvolvedor de software. Foi assim que comecei a observar o comportamento de alguns robôs mais óbvios, para tentar compreender a lógica subjacente.

Caso fossem robôs, obviamente não deveriam passar no teste de Turing, então haviam algumas formas de se testar a resposta dos participantes para ver qual o seu comportamento diante de desafios e respostas.

Então, sem qualquer compromisso profissional ou partidário, durante algumas semanas da campanha utilizei uma conta descaracterizada no Twitter para realizar alguns testes. Compartilho com vocês algumas dessas experiências.

Velocidade

Uma das medidas que buscava realizar era de velocidade das respostas. Haviam noticias publicadas e, logo no primeiro segundo já podiam ser encontradas respostas de 3 a 4 linhas nos comentários. Impossível para um humano digitar tudo isso no Twitter, mesmo em um teclado de desktop. Os primeiros a responder notícias do G1, Blog do Noblat, Folha, Estadão e assim por diante eram sérios candidatos a serem robôs ou marketeiros das campanhas.

Enviar respostas a esses primeiros comentaristas quase sempre confirmava que eram robôs. Ou não respondiam ou apresentavam respostas genéricas. Quando eram marketeiros, copiando e colando mensagens pre-elaboradas, costumavam oferecer respostas válidas.

Contas Antigas, Poucos Seguidores

Outra observação era da idade e número de seguidores dessas contas que ganhavam a corrida para fazer os primeiros comentários. Normalmente eram contas de 2009 e 2010, com muitos anos de existência, porém com pouquíssimos seguidores.

Não é natural para uma conta do Twitter com quase uma década de idade ter apenas 10 ou 11 seguidores. Até mesmo outros robôs seguiriam contas ativas ao longo de todo esse tempo. Contas com muito tempo de existência e baixo número de seguidores indicam forte possibilidade de tratarem-se de fakes.

Perfis Enlatados

O campo de descrição dos usuários também era um forte indicador de que eram robôs. O usuário real possui vínculo social com outras pessoas. Ele não precisa colocar em seu perfil uma descrição formal e padronizada daquilo que ele faz nas redes sociais, o usuário real simplesmente existe e utiliza a descrição para algo chamativo, simpático, filosófico e assim por diante.

Descrições do tipo “Sou TAL PARTIDO, possuo TAL IDEOLOGIA, TAL RELIGIÃO  e voto em TAL CANDIDATO” eram muito comúns. Esse tipo de descrição enlatada era encontrada aos milhares, porém não possui qualquer naturalidade. O usuário real “normal” jamais utilizaria esses textos padronizados. Foi utilizado um modelo qualquer que era levemente modificado em milhares de contas de robôs.

Fotos Manipuladas

A maior parte das fotografias utilizadas em perfís fake eram recortes de fotos maiores obtidas em redes sociais estrangeiras. O recorte serve para retirar alguém de uma foto de grupo, e assim dificultar a busca reversa por imagens. E o fato de ser estrangeira torna menos provavel que o verdadeiro dono da fotografia denuncie a falsidade ideológica aqui no Brasil.

Um truque também utilizado é o de girar a fotografia, ou inverter a imagem. Por exemplo, os algoritmos de identificação de padrões em fotos podem ser ludibriados invertendo-se horizontalmente a foto (função espelho).

Há algum tempo identifiquei uma fraude em um pedido de doações para crianças pobres carentes em um certo país Latino-Americano. Suspeitei do fato das palavras em espanhol estarem espelhadas nas camisetas das crianças. Ao inverter a imagem novamente e rodar a busca reversa, o Google revelou a verdadeira origem da foto. Mas a foto espelhada não produzia qualquer resultado! Assim, invertendo algumas imagens de perfís fake, era possível encontrar o verdadeiro cidadão retratado. Usuários mais astutos denunciaram várias dessas táticas.

Comércio de Contas Fake

É extremamente fácil comprar contas para Twitter, Reddit, Facebook e outras redes sociais. Basta uma simples busca no Google e podem ser encontrados generosos pacotes contendo 100, 200 contas ou mais, e que possuem inclusive verificação telefônica (as chamadas PVA ou “phone verified accounts”).

O único problema dessas contas é que a georeferenciação do telefone entrega o fato de que são contas estrangeiras. Então ocorria um fenômento interessante: hashtags brasileiras, totalmente específicas às nossas eleições, apareciam no topo dos assuntos mais falados em países como Bangladesh, India, Paquistão e assim por diante.

Mudança Radical de Comportamento

Outro aspecto bastante interessante que observei foi a mudança repentina no comportamento de contas entre ontem e hoje. Encerrado o segundo turno, as campanhas acabaram e os marqueteiros profissionais dispensam suas equipes. Como resultado, vejo que o perfil nos espaços de comentários mudou radicalmente nas últimas 24 horas!

A quem interessar possa, recomendo visitar Twitters políticos bem movimentados, como o G1, Miriam Leitão, Blog do Noblat, Augusto Nunes, Antagonista, entre outros (esqueça o viés político desses destinos, meu interesse é puramente técnico).

Repare que o tipo dos comentários e a velocidade com que aparecem mudou radicalmente após o fim das eleições. Isso, é claro, pode ter relação com o fato do engajamento popular naturalmente arrefecer após concluída a decisão eleitoral. Porém é fácil notar que o tipo, e não só a quantidade, dos comentários mudou radicalmente.

O engajamento também está totalmente diferente. Robôs raramente respondem a provocações, e quando o fazem utilizam respostas enlatadas como mais memes ou frases de efeito. As discussões hoje estão muito mais humanas, com interação real e respostas bem contextualizadas. Os diálogos que se observam hoje passam no teste de Turing!

Trolling for Greater Good

Alguns testes só eram possíveis por meio de interação. Ao fazer uma pergunta provocativa, o robô responderá com alguma coisa enlatada e, normalmente, descontextualizada. Já o usuário humano responderá de acordo com sua real função na rede social. Caso se trate de um funcionário da campanha, terá um tipo de diálogo totalmente distinto de um usuário real.

O usuário real possui preocupação com o impacto social de sua participação nas redes sociais. Head hunters utilizam as redes para verificar o perfil de potenciais contratações, e usuários com perfil radical ou anti-social não são chamados. Como está usando seu nome real, ele/ela não irá comprometer-se profissional e socialmente publicando mensagens demasiadamente controversas ou provocativas. Já os membros das campanhas políticas, utilizando nomes falsos, poderiam publicar respostas desrespeitosas sem qualquer prejuízo. Infelizmente o Twitter está infestado de contas falsas que publicavam todo tipo de absurdo impunemente.

Decentralização: A Arma mais Poderosa das Eleições 2018

Contas fake por toda parte, notícias falsas, broadcasts no WhatsApp e SMS, o mundo digital está totalmente fora do controle do Estado brasileiro. Podemos ir além: a comunicação está cada vez mais decentralizada e fora do controle de qualquer entidade. O povo está tomando as rédeas da comunicação em massa, e isso é muito bom. Porém, como vimos nessas eleições, é preciso ter cuidado com esse grande poder que o povo agora possui. É preciso ter critério para encaminhar mensagens a grupos com 100, 200 usuários. O resultado pode ser uma reação em cadeia impossível de ser interrompida.

P2P

A decentralização é uma arma popular muito poderosa. É a idéia por trás do Bitcoin e das criptomoedas em geral. O modelo peer-to-peer (P2P) dá ao cidadão a possibilidade de falar diretamente com qualquer outra pessoa em tempo real, sem a intermediação de um órgão centralizador.

No WhatsApp o modelo de rede não é P2P, mas a comunicação resultante é. Ou seja, na transmissão do WhatsApp há um servidor central, mas o usuário final tem a percepção de ter enviado a mensagem diretamente para alguém, sem intermediários.  Essa característica foi alavancada pelas campanhas políticas, que utilizavam grupos com 100, 200 pessoas para disparar materiais de campanha que se alastravam com velocidade assustadora. A facilidade como que se encaminham mídias no WhatsApp, especialmente em grupos com grande quantidade de participantes, pegou o TSE de surpresa. A comunicação de pessoa para grupos, e desse grupos mara muito mais pessoas, é como uma reação nuclear em cadeia, quando atinge uma massa crítica ela se torna uma explosão incontrolável.

Colaboradores

A decentralização também apresenta desafios. Se a campanha passou a ser realizada de forma distribuída, pulverizada e decentralizada, como então o TSE poderia identificar o que eram doações de campanha e o que eram simplesmente contribuições voluntárias por parte de usuários?

Milhões de usuários do WhatsApp realmente encaminhavam material de campanha uns para os outros. É praticamente inviável tentar fazer uma triagem entre disparos fake, pagos por marqueteiros, e alguém que seleciona 10 mensagens e encaminha para 20 contatos e grupos de uma só vez. O tráfego de rede seria praticamente idêntico.

O resultado é que não se sabe quantos milhões desses disparos foram oriundos de atividade comercial, e portanto doações para campanhas que devem ser declaradas como tais, e quantos milhões foram disparos orgânicos, de pessoas realmente engajadas voluntariamente com a campanha.

Eleições Absolutamente Inovadoras

Do ponto de vista tecnológico, as eleições de 2018 foram absolutamente inovadoras. O nível de sofisticação dos robôs empregados, sua eficiência, velocidade, e a forma como a tecnologia foi alavancada foram inéditos nas história do Brasil. A propaganda eleitoral obrigatória teve impacto nulo no resultado, tanto que o candidato com maior tempo de rádio e TV não conseguiu avançar sequer um ponto no primeiro turno.

Foi fascinante observar tudo isso em funcionamento, especialmente do ponto de vista de um desenvolvedor de software. O Twitter tornou-se um campo de batalha onde robôs e humanos travavam lutas intermináveis em busca da dominação política. O Facebook, com maior rigor na identificação dos usuários, dificultou bastante a ação de softwares de automatização de redes sociais. Porém mesmo assim foram descobertas dezenas de contas e pages que difundiam material passando-se por usuários reais.

Já o WhatsApp foi totalmente dominado pelas campanhas que souberam alavancar esse popular instant messenger. Apesar de terem descoberto e bloqueado algumas contas que disparavam mensagens em massa, isso só ocorreu no segundo turno e teve efeito muito limitado. Durante o primeiro turno, e nos meses que antecederam o período regulamentar de campanha, o WhatsApp já vinha sido sistematicamente utilizado para fazer campanha.

A Tecnologia Venceu

Independentemente de quem tenha sido seu candidato, a tecnologia foi a maior arma dessas eleições. TV, rádio e mídias impressas perderam para a Internet pela primeira vez no Brasil.

Depois de 2018 as campanhas eleitorais terão muito mais espaço para programadores e marketeiros digitais. TV e rádio devem perder bastante cancha nas campanhas futuras.

O jornalista será substituído por um criador de memes!

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