Divagações

Questione tudo: Fake Pesquisas, Fake News, Fake Realidade

Em época de eleições, muito tem se falado sobre fake news. São notícias maliciosamente propagadas para promover, denegrir, vender ou simplesmente inventar idéias. O emprego de fake news nas batalhas eleitorais não é novidade. Existem incontáveis exemplos, de vários países, que mostram o perigo do fake news na história das eleições desde muito antes da Internet se popularizar.

Mas existe um fenômeno ainda pior que o fake news. É o fake research, ou “pesquisas falsas”. Também conhecido por “junk science” entre outros nomes, o fake research tem efeitos nefastos e é muito mais difícil de detectar e rebater que as fake news. Normalmente a pesquisa fake trata de assuntos técnicos, que se encontram fora do alcance da crítica do cidadão comum.

Na maioria dos casos as fake pesquisas chegam ao povo por meio da imprensa. O telejornal divulga o factóide como sendo a mais nova e brilhante descoberta científica. Pessoas se adequam à nova descoberta sem questionar se é verdade ou não, e depois de algum tempo surge a notícia de que era tudo um grande engano ou fraude. É fácil negar as fake pesquisas, basta dizer que era tudo o que se sabia na época em que foi divulgada.

Vejamos alguns exemplos de pesquisas falsas.

Herbicida : Cancerígeno ou não?

Recentemente, uma grande empresa foi condenada a pagar uma multa milionária por esconder que sabia que o seu herbicida mais vendido causava cancer. O veneno segue nas prateleiras, sendo vendido ao consumidor como algo perfeitamente saudável. Por que os órgãos reguladores não retiram o produto do mercado? Porque não existe uma pesquisa conclusiva e que comprove que o produto é nocivo. A empresa que produz o veneno patrocina pesquisas que dizem que o produto é seguro, e pesquisadores de diversas universidades, alguns talvez contratados pela concorrência, publicam o oposto. A verdade é que há pessoas com cancer que estão processando a empresa, por terem trabalhado com o referido veneno e por acreditarem que o produto realmente faz mal à saúde. Porém a falta de honestidade nas pesquisas científicas relacionadas ao assunto nos deixam no nimbo. Há pesquisas contrárias, de autoria de pesquisadores de renome, que dizem que o produto é perfeitamente seguro. Como um cidadão comum pode questionar algo tão técnico e que envolve caríssimas pesquisas?

Pena de Morte

Talvez um dos exemplos mais marcantes do fake research seja o do americano Cameron Todd Willingham. Em 1991, a família inteira de Willingham morreu em um incêndio na pequena cidade de Corsicana, no Texas. Marcas de labaredas encontradas nas janelas e nos tetos da casa, bem como resíduos minerais, foram apresentados por peritos como sendo prova de que combustível fora usado para provocar o incêndio.

Willingham se comportou de forma esquisita ao ser abordado do lado de fora da casa e tornou-se o suspeito principal do suposto crime. Foi formalmente acusado, condenado à morte e executado.

Anos depois, pesquisadores do Innocence Project buscaram saber mais sobre tais peritos, e descobriram que não havia qualquer comprovação científica de tudo aquilo que foi apresentado no julgamento. As labaredas que marcaram as janelas e tetos da casa, e que foram determinantes na condenação, podiam ser causadas por um fenômeno que ocorre em incêndios de lugares fechados onde a temperatura ultrapassa determinado nível.

Ou seja, não configuravam uma prova conclusiva de que um combustível tinha sido usado. Os peritos haviam adquirido conhecimentos superficiais, apropriaram-se de partes fora de contexto de pesquisas que confirmavam seu viés, entre outras técnicas amadoras de fraude acadêmica (que qualquer professor reconhece em trabalhos de alunos desonestos) para condenar alguém a perder a vida. Hoje as tais marcas de labaredas não são mais aceitas como prova em casos envolvendo incêndios.

Fica a pergunta: Willingham era inocente?

Interesses

Todo fake research tem um combustível comum, que é o patrocínio de um forte interesse qualquer.

Seja interesse político, como no caso dos procuradores de justiça que desejavam condenar o cidadão texano por matar sua familia, seja interesse financeiro. Nos Estados Unidos uma condenação por um crime bárbaro, como aquele atribuído a Willingham, tem grande peso no currículo de um procurador.

Lembrando que lá não há concursos públicos e os procuradores podem ser contratados e demitidos de acordo com seu currículo. Subir na carreira, nesses casos, depende de obter o maior número possível de condenações e exposição na mídia. É um sistema competitivo demais e que gera distorções como a que acabamos de ver.

Já as grandes corporações desejam provar que seus produtos controversos fazem bem à saúde, ou que o produto de um concorrente faz mal. Há sempre um interesse por trás das fake pesquisas.

Pros Cocos

Recentemente, uma professora de Harvard, uma das universidades mais respeitadas do mundo, publicou que “óleo de coco é veneno“. Não podemos saber ao certo o que estaria por trás de sua pesquisa, nem podemos acusá-la de qualquer suspeita infundada. Também se torna difícil questioná-la, pois se trata de uma autoridade no assunto e um leigo provavelmente não teria argumentos técnicos para rebater qualquer coisa que fosse dita. Eis que, poucos dias depois, surge uma outra linha de argumentação que fiz que óleo de coco não é tão ruím assim.

Quantos casos parecidos poderíamos lembrar sem muito esforço? Ovos de galinha fazem mal, ovos fazem bem, gordura suína fazia mal, hoje faz bem, colesterol mata mas existe o colesterol do bem, armas de fogo causam violência mas alguns países fortemente armados têm menos violência que outros desarmados.

Armas de Fogo

Aliás, poucos assuntos atraem mais fake research que armas de fogo. Chegou-se ao ponto de ser praticamente impossível discutir sobre esse assunto de forma racional, especialmente durante o período eleitoral quando um candidato controverso apropriou-se da defesa às armas de fogo. Existem dezenas de falsas correlações sendo amplificadas pela imprensa, simplesmente por viés de confirmação. Deseja-se “provar” que as armas são ruins, por crença ideológica ou má fé, e usam-se os mais variados dados para atingir esse fim. A verdade é que condições sociais, psicológicas e econômicas explicam muito melhor o fenômeno da violência, porém a grande mídia segue propagando fake research sobre as armas de fogo. Um bairro na Suíça, onde 100% da população é armada, tem zero homicídios por ano. Um bairro pobre no Brasil, alvo do desarmamento, tem uma chacina por semana. A maioria das pesquisas contra as armas são patrocinadas por políticos e grupos de interesse contrários às armas – e a recíproca também é verdadeira: o lobby das armas patrocina as pesquisas a favor. Provavelmente a verdade se encontra no meio termo, lugar difícil de se chegar em tempos de radicalismo.

Internet faz mal?

A internet está ligada a transtornos mentais ou não? Depende. A empresa que vende produtos para “gamers” afirma que não, e que é perfeitamente saudável ficar 40 horas ligado ao PC sem dormir enquanto se consomem bebidas cafeinadas. eSports são a mais perfeita antítese dos esportes. Jovens sentam-se durante horas a fio sem mover um só músculo, sem derramar uma gota de suor, e jogam videogames que simulam esportes reais. Recentemente um rapaz perdeu várias partidas de futebol virtual e, sob efeito da ira de perdedor, foi buscar uma arma, voltou e abriu fogo contra os rivais. Culparam a arma de fogo, e não as horas seguidas com altas doses de ansiedade, deprivação de sono e estresse que acompanham esse tipo de atividade.

Big Fake?

Aquele sanduíche famoso que foi alvo de um documentário de um personagem que nunca mais conseguiu emagrecer e morreu, na verdade faz mal ou não? Depende. Há uma pesquisa que diz que é perfeitamente saudável comer 5 ou mais desses sanduíches por dia.

Urnas Nucleares

Órgãos estatais usam as fake pesquisas para fazer propagandas que beiram o ridículo. “Nossos sistemas são 100% seguros e invioláveis” é um exemplo bem atual. Ver altas autoridades negando uma lei da computação, ao vivo na TV chega a causar desânimo. Teriam esses técnicos estatais resolvido o famoso problema da parada? Desenvolveram um software que testa se qualquer outro software é 100% seguro e inviolável? Há vários outros exemplos do poder público usando meias verdades e pesquisas fajutas, patrocinadas por quem quer que seja (ou, como dissemos, por um interesse político qualquer).

Consultoria Paranormal

Uma autoridade brasileira chegou ao cúmulo de contratar uma “consultoria paranormal” para auxiliar em decisões de governo! As informações prestadas por essa consultoria são fundamentadas por fake pesquisas. Basta perder algumas horas estudando os resultados obtidos pela consultoria do além para demonstrar que utilizam correlações falsas, amostras de tamanho inadequado, saltos quânticos no raciocínio lógico e falácias de todo tipo. O texto tem início em uma argumentação que parece sensata e, lá no meio, dá um salto que chega a uma conclusão que resolve os problemas do universo.

Bitcoin

Por fim, cito os diversos laureados com o Nobel de Economia que têm afirmado que o Bitcoin é uma fraude. Não há qualquer fundamentação para essas afirmações, exceto o fato de que há registros de crimes cometidos usando Bitcoin como moeda de troca. Imagine se o cometimento de crimes fosse parâmetro para considerar uma moeda como sendo fraude. Qual seria a maior fraude do mundo? Mas quem iria questionar um prêmio Nobel? (OBS. Ninguém questiona o fato do ganhador do Nobel de Economia ser escolhido por um banco central?)

Questione tudo!

A educação passa por uma forte crise no ocidente (não apenas no Brasil) e as mais variadas falsas pesquisas circulam entre as pessoas como sendo verdade. Como as pessoas são educadas para não questionar, torna-se fácil propagar todo tipo de invenção. O resultado é que o povo está sendo alienado por excesso de informação no lugar da censura, exatamente como previsto por Aldous Huxley. Quem deseja abafar uma informação indesejável não precisa censurar, basta injetar ainda mais informação contrária e gerar discórdia.

Na dúvida, questione tudo que vê na Internet, e só depois de alguma pesquisa passe a acreditar. Partindo desse pressuposto, boa parte das fake news e pesquisas fake não se espalhariam.

O problema das fake news já é nosso velho conhecido, o real problema do futuro é o fake research. Nada é mais perigoso que dados falsos e meias verdades quando são apresentadas por uma autoridade. A pessoa humilde jamais questionará o pesquisador corrupto, o leigo não conseguirá rebater o pesquisador comprado, e aí reside o perigo.

 

Foto “Question Everything” de autoria de Alex Pepperhill @ Flickr

Standard