Divagações

Duas frases famosas, supostamente reais, inventadas por Hollywood

Há um bom tempo vinha protelando a publicação desta divagação que deixei pendurada nos rascunhos do blog.

Lembrei desse assunto recentemente, quando conversava com um amigo que havia acabado de assistir “All the president’s men”.

Voltei para casa e, ao fazer manutenção dos sites abandonados com WordPress 4, coincidentemente vi esta postagem, que inclui a frase famosa do filme sobre o impeachment do Nixon.

Então movi o texto que segue, da arca de naftalina, para os publicados.

Lá vai.


Hollywood, como bem sabemos, cunhou muitas frases emblemáticas. “Say hello to my little friend”, “Hasta la vista, baby”, e por aí vai.

Eis que lembrei de duas frases, de filmes de não-ficção, que são fictícias.

Houston, we have a problem

Para os americanos o número 13 significa azar. Muitos edifícios nos EEUU não possuem o 13o andar, cardápios de restaurantes saltam do item 12 direto para o 14 e por aí vai. Trata-se de algo cultural, de certa forma uma brincadeira que eles fazem com o número 13. Engraçado que esse número parece perseguir quem acredita no mito do azar em torno dele. Lembremos de uma história famosa.

O homem pisou na lua na famosa missão Apollo de número 11. Foram 10 missões preparatórias para a grande conquista do satélite da terra na 11a tentativa.

Correu tudo bem, também, na Apollo número 12.

E então a superstição do 13 assombrou os Estados Unidos mais uma vez. A missão Apollo 13 foi um desastre quase completo, não fosse o final feliz com todos os astronautas retornando vivos.

Logo no início da missão ocorre um problema com a nave. O astronauta Jack Swigert pega o rádio e comunica o controle da missão, em Houston, de que houve um problema. Houve um problema – e não temos um problema.

A frase é quase sempre usada para significar “estamos encrencados”.  Mas não foi isso que Swigert quis dizer. Sua mensagem foi técnica: aconteceu algo. A frase exata gravada pela NASA é “Okay, Houston, we’ve had a problem here“.

Lousma: "13, we've got one more item for you, when you get a chance. We'd like you to stir up your cryo tanks. In addition, I have shaft and trunnion – –"
Swigert: "Okay."
Lousma: "– – for looking at the Comet Bennett, if you need it."
Swigert: "Okay. Stand by." (two minutes of silence)
Swigert: "Okay, Houston, we've had a problem here."
Lousma: "This is Houston. Say again, please."
Lovell: "Uh, Houston, we've had a problem. We've had a MAIN B BUS UNDERVOLT."
Lousma: "Roger. MAIN B UNDERVOLT."
Lousma: "Okay, stand by, 13. We're looking at it."

Já no filme Apollo 13, de 1995, não foi Jack Swiggert que iniciou o diálogo com Houston. Tom Hanks, fazendo o papel do comandante da missão Jim Lovell, pega o rádio e manda a versão fictícia “Houston, we have a problem”, fazendo uma expressão facial de “estamos encrencados”. A partir daí todos passamos a usar a frase com esse significado.

Mas, convenhamos, seu insosso significado original não teria o apelo popular que a versão adaptada teve.

Follow the money

Em tempos de Lava Jato tem-se ouvido bastante a frase “Follow the money”, originalmente atribuída ao informante “Garganta Profunda” do escândalo Watergate.

Os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein recebiam dicas desse informante anônimo e, no filme “All the president’s men” (1976), a frase tornou-se famosa como sendo o caminho das pedras para se chegar aos culpados pela invasão à convenção do Partido Democrata nas eleições de 1968. Não me recordo bem dos detalhes, porém parece que um cheque, ou depósito, na conta de um dos suspeitos conduziria a trilha de investigação diretamente ao presidente Richard Nixon. E assim foi. Nixon renunciou logo depois da descoberta do tal depósito.

Toda atividade criminosa visa obter alguma vantagem, senão não faz sentido. Fora os psicopatas que obtêm vantagens pessoais pela mera satisfação de fazer o mal, a vasta maioria dos crimes ocorre para se obter algum lucro financeiro. O crime é movido a dinheiro. Então, “seguir o dinheiro” faz sentido como tática de investigação. A frase ficou famosa e é usada em todo tipo de contexto envolvendo crimes, especialmente os de colarinho branco que têm vindo à tona no Brasil.

Ocorre que a frase nunca foi dita da forma como foi mostrada no filme. O informante Garganta Profunda nunca disse “follow the money”.

A frase icônica, que marcou a época na política, foi uma graça inserida no filme e que acabou pegando na cultura popular. O livro homônimo ao filme, de Bernstein e Woodward, não contém a frase.

 

Referências

Follow the Wikipedia (Não deixe de fazer uma doação à Wikipedia!)

Apollo XIII: Transcrição completa da NASA

 

Crédito da Foto em Destaque: NASA

 

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